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Back in Black, do AC/DC: velório regado à Uisque e Rock And Roll

No final dos Anos 1970, o AC/DC era uma das maiores atrações do rock. Até mesmo os punks adoravam a banda, que fazia um rock vigoroso, com ótimas letras e um som cru que lembrava os primórdios do gênero.

Porém, após o grande sucesso de “Highway To Hell”, lançado em 1979, e de sua turnê, no início dos Anos 80, a tragédia se abateu sobre a banda. Bon Scott, vocalista e letrista, morre decorrente do excesso de bebida.

O que poderia ter sido o fim da banda, na verdade, se tornou o recomeço, ou, o nascimento de uma nova fase na carreira do grupo.

Logo após a morte de Bon Scott, o grupo resolveu encontrar outro vocalista e seguir em frente. Foram feitos alguns teste, com alguns cantores, e o escolhido acabou sendo Brian Johnson, que era cantor de uma banda escocesa chamada Geordie.

Brian Johnson era perfeito para o AC/DC: tinha uma voz forte, uma postura boa de palco e também era um bom letrista

Johnson não era tão desconhecido assim do pessoal do AC/DC, nem tão pouco do falecido Bon Scott, que o conheceu quando Scott era cantor da banda Fraternity, um grupo progressivo australiano. Diz a lenda que os dois se encontraram no início dos Anos 70, quando o Fraternity estava excursionando pela Inglaterra e o Geordie era a banda de abertura dos shows.

Reformulado, o AC/DC e seu produtor Robert John “Mutt” Lange foram para as Bahamas para gravar o disco que foi batizado com o nome de uma das canções, “Back In Black”. As gravações transcorreram sem problemas e Johnson se encaixou perfeitamente na banda, e logo esse entrosamento resultaria em mais sucesso.

Lançado em 25 de julho de 1980, “Back In Black” foi direto para as paradas de sucesso, sendo quarto lugar na Billboard americana e primeiro na Inglaterra. Pouco tempo depois, já era um dos discos mais vendidos de todos os tempos; e hoje, é o segundo mais vendido (42 milhões), só perdendo para “Thriller”, de Michael Jackson.

Muito do sucesso do disco se deve às letras de Brian Johnson. Porém, o AC/DC como banda estava em ótima forma. Os riffs criados por Angus Young são considerados os melhores que ele produziu em todos os tempos. A crueza do álbum ao mesmo tempo impressionava e encantava as pessoas: de tão simples e ao mesmo tempo complexas que eram as canções, entrecortadas pelas guitarras afinadíssimas dos irmãos Young (Angus e Malcolm), seguidas pela cozinha sólida de Phill Rudd e Cliff Williams, que ditavam os compassos e os tempos, e tudo isso sobre a voz rasgada e vigorosa de Brian Johnson. O resultado: um disco que você ouve do início ao fim numa tacada só… chegando no final quase sem fôlego.

Depois de “Back In Black”, o AC/DC gravaria outros discos muito bons naquele início dos Anos 80, como: “For Those About To Rock… We Salute You (1982), “Flick Of The Swicht” (1983) e “Fly on The Wall” (1985). E recentemente, em 2008, o grupo retomaria às fórmulas consagradas nestes álbuns e lançaria “Black Ice”, com o mesmo produtor Robert John “Mutt” Lange. Como naqueles tempos, o resultado agradou demais aos fãs, e este disco já é considerado um clássico do grupo.

Na vida assim como na natureza a renovação se faz necessária. Se por um lado o AC/DC perdeu a figura carismática de Bon Scott, a banda se reergueu e ficou mais forte com Brian Johnson. E “Back In Black” é a resposta de que toda tristeza pode e deve ser superada para que possamos seguir em frente porque, enquanto não ouvirmos os sinos do destino, temos muita coisa pra fazer ainda por aqui… Se for ao som de um disco como “Back In Black”, do AC/DC, um dos maiores clássicos do rock de todos os tempos, fica melhor ainda.

 

 

Faixas Comentadas

 

“Hell´s Bells” – O disco abre com os sinos de um funeral simbólico, o suposto enterro de Bon Scott ou sua chegada ao inferno? Nada disso, uma festa regada a hedonismo, morte e muito rock and roll, com um dos riffs mais infernais de Angus Young. Nos shows da turnê de promoção do disco, Brian Johnson escalava uma corda e batia os sinos gigantes, para o delírio dos fãs;

 

Shoot The Thrill” – A letra é uma declaração às mulheres pedindo para elas atirarem para se excitarem. Totalmente sexual, bem ao estilo AC/DC… “Mulheres, eu peguei minha arma no ponto, e vou atirar”… Nada mais rock and roll;

 

What Do You Do For Money Honey” – Essa música questiona uma prostituta a se perguntar, o que você não faz pelo dinheiro querida? São só negócios, como sempre;

 

Given The Dog A Bone” – Assim como boa parte das músicas do AC/DC, o sexo é o tema principal, e nessa música ele nunca foi tão explícito, especialmente pela frase: “ela está usando a cabeça novamente”, que você pode interpretar de várias formas, porém, em se tratando de AC/DC, eu interpreto da pior maneira possível. O mais interessante é que o riff hipnótico não me deixa dúvida de que se trata de uma …. (isso cabe a você imaginar, sabichão);

 

Let Me Put My Love Into You” – Essa canção tirou o comitê PMRC (Centro de Recursos Musicais de Pais) do sério. Esse comitê listou em 1985, 15 canções que ficaram famosas nessa lista que ficou conhecida como a lista das “quinze asquerosas”, que incluiam, além desta canção do AC/DC, músicas como “Darling Nikki”, do Prince, em primeiro lugar, “Sugar Wall”, de Sheena Easton, em segundo, e “Eat Me Alive”, do Judas Priest, em terceiro. Odiado pelos artistas, esse comitê conservador zelava pelos bons costumes e tentava (inutilmente) preservar os jovens de coisas que eles consideravam ofensivas à sua formação, como o rock and roll;

 

Back In Black” – A música que dá título ao disco não poderia ser mais memorável. Com um riff matador, ao melhor estilo Angus Young, essa canção fala de dar a volta por cima, de estar de novo no jogo, por assim dizer. Eu me lembro de que em 1981, era um sucesso fenomenal, tocava direto nas rádios e deixava a molecada doida…Também não é por menos. Com certeza o maior sucesso do AC/DC neste álbum, que já recebeu vários covers, sendo o mais bacana da banda The Hives;

 

You Shook Me All Night Long” – Mais uma letra de cunho sexual, e uma das mais bacanas do disco. Com o tempo, essa música acabou virando vinheta de vários eventos esportivos nos Estados Unidos;

 

Have A Drink On Me” – Em tempos de “Lei Seca”, e do “politicamente correto”, essa canção do AC/DC não deve ser consumida com moderação. O tema é uma pura homenagem ao ex-vocalista Bon Scott, que gostava de se embriagar, e até morreu após uma noite de muita birita. De qualquer forma, só ouça essa canção acompanhado de menores… de 80 anos;

 

Shake A Leg” – O que dizer se uma canção com estas frases: “Revistas, sonhos pornográficos / Mulheres vadias em máquinas para mim / Grandes lambidas, beliscões e chupadas são minha química”… E isso tudo com muita guitarra, um riff infernal, baixão sincopado, uma batera mais precisa que um relógio suíço e um vozeirão gritando essas coisas… Só posso dizer que é puro rock and roll; de verdade, direto na veia;

 

Rock And Roll Ain´t Noise Pollution” – E se você sobreviveu a esse “velório”, com muito sexo, bebida e barulho (no bom sentido), poderá ouvir essa reclamação no final do disco, onde a banda protesta contra aqueles (caretas, eu diria) que acham que rock and roll não é música de verdade, que rock é só barulho (no mau sentido)… Para estes, o AC/DC gravou essa canção, não para dizer que rock é coisa séria, não. Pois, com o AC/DC rock pode ser tudo, menos sério.. Por isso mesmo, maravilhoso! Sempre.

 

 

Em tempo: apesar de ser repleto de temas sexuais e falar abertamente sobre bebidas, eu não acredito que o disco seja uma apologia a estas coisas. Porém, quero deixar registrado que cada pessoa é livre para escolher o que é bom para si, como fumar, beber, se drogar, etc. E quero lembrar que tudo isso interfere na sua vida, seja você roqueiro ou não. Por isso, longe de aconselhar quem quer que seja, tome cuidado! Porque o bacana desta nossa viagem por aqui, desta passagem que é única, é poder aproveitar as coisas sem que elas prejudiquem nossa saúde, nossa formação e nossa evolução como seres humanos. Me desculpem se esse discurso é um tanto careta, mas, se faz necessário. Porque, o rock sempre esteve envolto nesta atmosfera de criminalidade, de marginalidade, porém, as guerras, a intolerância e o radicalismo fazem mais vítimas que qualquer sujeito empunhando uma guitarra ou cantando numa banda de rock. As pessoas “normais”, conservadoras em sua maioria, sempre utilizam o rock como instrumento do mal. Mas o verdadeiro mal está em usá-lo como bode expiatório de uma sociedade careta que tenta fazer com que as pessoas sejam presas em padrões de comportamento que interessam a elas, que, assim, podem ser facilmente dominadas e manipuladas. Por isso, qualquer banda de rock ou qualquer roqueiro deve sim incomodar estas pessoas. Porque, hoje mais do que nunca, ouvir rock é lutar contra toda a hipocrisia que vigora não só na música, mas nas ruas, na TV, na política, religião, etc… em tudo que nos cerca.

 

 

Vitor R. E. Aleixo, publicitário, 48 anos, ex-produtor do programa “Arquivo Pop”, da Rádio Cultura FM de Amparo, 102,9MHz; atualmente, produz o programa “Wooly Bully”, na Rádio Rock Clube, no site: www.radiorockclube.net.

Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band: O disco dos Beatles que mudou o rock

Em meados dos Anos 1960, os Beatles estavam se afastando daquela imagem juvenil de “Reis do Iê Iê Iê”. O primeiro passo foram as gravações de “Rubber Soul” e “Revolver”, em 1965 e 1966 respectivamente. Mas, a mudança viria mesmo com “Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band, lançado em 1967. Deste disco em diante, o rock não seria mais o mesmo.

Os Beatles já haviam se tornado o grupo musical mais famoso do mundo antes de lançarem Sgt Pepper´s. Enquanto o mundo ardia em conflitos políticos, os rapazes de Liverpool não queriam nem saber e procuravam manter a imagem de bons moços. Mesmo com a polêmica frase de John Lennon, “nós somos mais populares que Jesus Cristo”, dito em meados da década, a preocupação deles era com a música. Mais tarde, o mesmo John Lennon iria se envolver mais com política, e isso pode ser um dos motivos que levou o grupo a se separar em 1970. Porém, naquele ano de 1966, quando o LCD estava abrindo as cabeças e o rock vivia seu segundo grande momento histórico, a banda mais famosa daquele período vivia seu apogeu.

Apesar de ser lançado somente em 2 de junho de 1967, Sgt Pepper´s começou a ser germinado no ano anterior, quando Paul McCartney pensou em fazer algo que mudasse a imagem do grupo: de rapazes engraçadinhos a músicos sérios. Paul viu nessa mudança a oportunidade da banda explorar os mesmo caminhos que já haviam sido abertos pelos dois álbuns anteriores (“Rubber Soul e “Revolver”). Porém, indo mais fundo nessas experiências.

Sgt Pepper´s introduziu uma série de experimentações de estúdio que o fizeram uma referência para as gravações dos álbuns a partir de então.

Capitaneando os estúdios e uma mesa de quatro canais estava o produtor George Martin, que deu vida às ideias musicais dos rapazes dos Beatles.

O embrião do que o álbum traria fora lançado ainda em 1966, “Strawberry Fields Forever”, um single que não está no disco, mas que abriu as portas para o que viria a ser feito.

Sgt. Pepper´s foi pensado para ser um álbum revolucionário como um todo. Até a sequência das canções foi planejada e, as músicas emendadas sem interrupção, era algo inovador para a época. Além do que, com esse disco, os Beatles acabaram influenciando a criação do termo que viria a ser batizado de “album conceitual”. Na verdade, John Lennon foi quem teve essa ideia, que foi combatida ferozmente pelo empresário deles na época: Brian Epstein, que acabou perdendo a batalha. Assim, o disco era inovador também por esse motivo. Uma vez que os LPs na Inglaterra eram vistos como um amontoado de hits somados ao que era conhecido por “fillers”, músicas para completar o vinil. Com Sgt. Pappers, os Beatles acabam com isso, e os LPs passam a ter identidade própria, pois a ideia era oferecer um maior número de músicas no espaço de um vinil.

O álbum fora gravado entre 6 de dezembro de 1966 e 1 de abril de 1967. Os Beatles e o produtor George Martin se enfurnaram no estúdio por 129 dias e produziram cerca de 700 horas de gravação para nascer Sgt. Papper´s.

Só para se ter uma ideia do impacto do álbum, lançado somente em 2 de junho daquele ano de 1967, seis dias depois do lançamento, Jimi Hendrix já cantava a música tema nos seus shows pela Inglaterra.

Posteriormente a Sgt. Pepper´s, muitos outros artistas criaram seus “álbuns conceituais”, mas certamente, os Beatles saíram na frente, dando o pontapé inicial e influenciaram um cem número de artistas pelo mundo afora.

Se hoje as novas tecnologias permitem gravações de todas as maneiras, naqueles longínquos anos de 1966 e 1967, os Beatles, George Martin e uma mesa de quatro canais, provaram que para se gravar um bom disco não é preciso muita tecnologia, mas, sim, muita criatividade e genialidade ao produzir um álbum tão complexo com o que a tecnologia dispunha naquele momento.

Se hoje sobra tecnologia, falta criatividade aos grupos de rock, que mais parecem uma cópia de si mesmos, por isso que Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, continua sendo um disco tão importante para o rock hoje e sempre.

 

A Capa de Sgt Pepper´s…

 

Outro diferencial do disco Sgt. Peppers dos Beatles era a capa. A idéia original foi de Paul McCartney, que desenhou num papel uma multidão em praça pública assistindo Sgt. Pepper e sua banda receberem do prefeito uma copa ou um troféu.

Então, a partir desse desenho, os artistas Peter Blake e Jane Haworth desenham e desenvolvem toda a concepção da capa do disco. Também Robert Frazer, dono de uma galeria de artes, supervisionou todo o projeto. Inclusive, foi ele quem indicou o fotógrafo Michael Cooper para a famosa foto da capa.

Aconteceu então uma reunião entre Blake, Frazer e McCartney, onde nasceu a idéia da banda escolher a galeria de pessoas a serem representadas na capa. Paul se encarregou de levar a proposta aos demais Beatles e sugerir que eles indicassem uma lista de pessoas que gostariam de ver na capa do disco.

John Lennon escolheria: Lenny Bruce, Aleister Crowley, Dylan Thomas, Oscar Wilde, Edgar Allen Poe e Lewis Carroll. De sua lista foram excluidos: Gandhi, Hittler, Jesus Cristo, Marques de Sade entre outros; George Harrison só escolheu Gurus indianos, todos com nomes incompreensíveis; Paul McCartney indicou Brigitte Bardot, William Burroughs, Robert Pell, Karlheinz Stockhausen, Aldous Hexley, H.G. Wells, Albert Einstein, Carl Jung, Aubrey Beardsley, Alfred Jarry, Tom Mix, Johnny Weissmuller, Rene Magritte, Tyrone Power, Karl Marx, Richmal Crompton, Dick Barton, Tommy Handley, Albert Stubbins e Fred Astaire; Ringo Starr não indicou ninguém, apenas apoio as indicações dos demais Beatles; o casal de artitas Peter Blake e Jane Haworth contribuiram com as presenças de W.C. Fields, Tony Curtis, Dion DiMucci, Bobby Breen, Shirley Temple, Sonny Liston, Johnny Weissmuller e H.C. Westerman e, Robert Frazer incluiu Terry Shoutern, Wally Berman e Richard Lindner.

Muita gente mesmo foi homenageada com a foto na capa do disco. Também essa capa seria uma grande influência para tantas outras capas de discos de rock a partir de então. No ano seguinte, 1968, Frank Zappa parodiou a capa de Sgt. Peppers no seu disco We´re Only In It For the Money (Nós só estamos nessa por dinheiro), refazendo a famosa foto como muita ironia. Os Beatles encararam numa boa a gozação, mas não responderam se estavam na música somente por dinheiro.

 

Faixas Comentadas

 

“Sgt. Peppers Lonely Hearts Club”, a música que abre o disco, é uma brincadeira com aquela coisa de ser uma outra banda, e traz uma gritaria no final, que é de uma apresentação do grupo no Hollywood Bowl, em 1965; “A Little Help From My Friends”, é cantada por Ringo Starr, pois, como era acordado entre eles, em todos os discos, pelo menos duas músicas seriam cantadas por Ringo e George. Assim, Lennon e McCartney perceberam que o disco estava quase pronto e faltava uma canção para Ringo cantar, daí nasceu essa música; “Lucy It The Sky With Diamonds”, que todos juram ser uma referência ao LSD, mas que John Lennon dizia que se tratava de um desenho feito pelo seu filho Julian, então com quatro anos, para sua amiguinha Lucy O´Donell, uma colega de escola; “Getting Better” nasceu de uma expressão de Jimmy Nichol, baterista que substitui Ringo Starr na turnê Australiana de 1964, pois Ringo estava hospitalizado. John Lennon disse a respeito dela: “Eu sou um homem violento que aprendeu a não ser violento. Um homem que se arrependeu de sua violência.”; “She´s Leaving Home” foi inspirada num artigo de jornal sobre uma garota de 17 anos que fugiu de casa. Nessa canção, a orquestra foi regida por outra pessoa, não por George Martin, que ficou ofendido com a atitude do grupo; “Being For The Benefit Of. Mr. Kite” teve como inspiração um cartaz de 1843 que foi comprado por John Lennon, com a apresentação de um circo que foi de William Darby, o primeiro negro a ser proprietário de um circo na Inglaterra; “Within You, Without You” é baseada na filosofia hindu que George Harrison estava estudando; “When I´m Sixty-Four” foi escrita por Paul McCarty quando ele era menino, em 1957, quando morava com seus pais; “Lovely Rita” tem uma referência ao nome de um policial de trânsito chamado Meta Davis. Paul ficou encantado com o nome Meta, que segundo ele, soava como um jingle publicitário. Brincando ao piano acabou compondo essa música; “Good Morning Good Morning” foi tirada de uma propaganda da Kellogs sobre cereais de milho. A letra é uma ode à vida suburbana que John Lennon vivia naquela época; e finalmente “A Day In The Life”, que se refere quase exclusivamente a alguns artigos de jornais lidos diariamente por John Lennon.

No final do disco, em vinil, ainda era possível ouvir uma mensagem ao contrário (chamada de backmasking), segundo Paul a mensagem dizia: “Coundn´t really be any other” (traduzir), mas que soava mais como: “We´ll fuck you like superman”, que não dá para traduzir.

 

NOTA: Para escrever este artigo, utilizei-me das pesquisas e partes do texto que fora produzido por mim para o Programa Arquivo Pop, na Rádio Cultura FM de Amparo.

 

Vitor R. E. Aleixo, publicitário, 48 anos, ex-produtor do programa “Arquivo Pop”, da Rádio Cultura FM de Amparo, 102,9MHz; atualmente, produz o programa “Wooly Bully”, na Rádio Rock Clube, no site: www.radiorockclube.net.

Exile On Main Street: o disco dos Rolling Stones feito no exílio do rock

Em 1972, os Rolling Stones se exilaram no sul da França para gravar um novo disco. Seria o 10º álbum na carreira da banda, e aquele que para alguns críticos capturou o melhor momento do grupo.

Os Rolling Stones haviam conquistado o mundo nos Anos 1960. Ao lado dos Beatles, se tornaram ícones do Rock And Roll, influenciando inúmeros jovens ao redor do mundo.

No auge da fama, após lançarem o aclamado álbum “Beggar´s Banquet”, em 1968, o grupo que já tinha uma má reputação devido aos escândalos envolvendo drogas, se viu mais uma vez nas páginas dos tabloides londrinos devido à morte de Brian Jones, que fora encontrado morto boiando na piscina de sua casa, naquele mesmo ano. Depois, devido ao malfadado concerto de Altamont, onde um Hell Angel matou um rapaz negro, isso em 1969, o grupo se viu de novo nas páginas dos jornais e alvo de críticas.

Se não bastasse os problemas acima, o grupo descobre que seu agente na época, Allen Klein, não havia pago os impostos, o que resultou numa dívida de mais de 100 mil libras ao governo britânico.

O final da década de 60 e o começo da década de 70 não poderiam ter sido tão ruins para os Rolling Stones.

Estes problemas não alterava em nada o ritmo do grupo que continuava gravando álbuns e excursionando. Até que em 1972, eles decidem deixar a Inglaterra para se instalarem numa casa que Keith Richards tinha alugado no sul da França, em Ville Franche-Sur-Mer, vila Nellcote. A saída foi a solução encontrada para poder repensar o futuro da banda.

Porém, a mudança para o Sul da França e as gravações de um novo disco não foram nada fáceis. Primeiro, porque apesar da massiva cobertura da imprensa, a saída da Inglaterra deixou mais uma má impressão sobre a banda; que agora recebiam a pecha de fugitivos; depois, causou estranheza e desconfiança nos fãs, que chegaram a acreditar que a banda pudesse terminar. E naquela época, os Rolling Stones era o que havia sobrado do sonho da década de 60, uma vez que outros ídolos como os Beatles não existiam mais. E também Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison havia morrido, deixando a juventude órfã, por assim dizer.

Ao se instalarem em Nellcote, a banda percebeu que a rotina na casa de Keith Richards não era nada convencional. A começar pelo local, uma velha mansão construída por um almirante britânico que chegou a ser utilizada durante a guerra pelos nazistas. E também pelo fato da casa estar sempre cheia de gente, num clima de badalação constante.

As gravações então se tornaram um capítulo à parte nesta história. Auxiliados pela equipe móvel da Rolling Stone, o grupo improvisou em uma parte da casa uma espécie de estúdio que, segundo relatos dos próprios músicos, dificultava muito a comunicação entre eles, devido ao tamanho do local.

Assim, os dias foram transcorrendo num verdadeiro caos, pois além da banda que se instalara no local, muitas outras pessoas acabaram aparecendo e ficando por lá também. E, inevitavelmente, interferiam no andamento do processo de gravação, que, apesar de tudo isso, tinha um tipo de metodologia específica, e só iniciava depois que Keith Richards estava presente, isso lá pelo meio da tarde, e se estendia até a madrugada.

Os Stones junto da equipe técnica e familiares viviam num clima de comunidade hippie. Nestas condições, não faltavam drogas e nem bebidas que foram utilizadas como combustíveis nestas gravações.

Quando enfim todos no grupo estavam saturados de tudo aquilo e já não suportavam mais aquela rotina, ao cabo de nove meses, eles perceberam que haviam produzido muito material, o suficiente para um álbum triplo.

O álbum acabou sendo finalizado em Los Angeles, nos Estados Unidos, nos famosos Olympic Studios, onde se transformou em um disco duplo, contendo 18 músicas. O primeiro e único disco duplo (fora os ao vivo) que os Rolling Stones gravaram ao longo de mais de 50 anos de carreira.

“Exile On Main Street” foi lançado em 12 de maio de 1972. O disco não agradou de imediato os fãs, os críticos e a própria banda. Porém, com o passar do tempo, o álbum foi sendo reverenciado e hoje é considerado o melhor momento dos Rolling Stones, figurando em qualquer lista de melhores discos de rock de todos os tempos.

Ao mergulharem no rock and roll, no Blues, country, gospel e soul, os Stones produziram um disco único; distante milhas e milhas do que estava sendo produzido naquele período da música pop. Por isso, “Exile” é considerado um álbum fora de contexto, singular. Mas, de um significado marcante, o momento em que o rock fora exilado, no sul da França, mais negro do que ele nunca mais voltou a ser novamente.

 

Faixas Comentadas:

Antes de falar das músicas, não posso esquecer de falar sobre a capa do disco, produzida a partir de fotos de Robert Frank, um grande fotógrafo americano, que se encaixou perfeitamente ao que os Stones buscavam. Suas imagens bizarras, de pessoas esquisitas e do cotidiano da cidade, mescladas com fotos da banda, fez história e inspirou outras capas de discos de rock nas décadas seguintes.

José Emílio Rondeau, jornalista que fez parte da equipe da revista Bizz na década de 80, numa resenha para a seção “Discografia Básica”, daquela revista, escreveu: “A maioria das músicas era uma sucessão de polaroides rock – imagens de decadência, dor, perigo, desilusão. E de sobrevivência”.

Com esta introdução deste grande jornalista, eu faço justiça a outro texto, capturado no site Whiplash.net, que descreve as músicas deste que é o disco mais importante dos Rolling Stones. A seguir:

“Como bem defende boa parte dos fãs e especialistas, Exile On Main Street é “O” grande disco dos ROLLING STONES. Gravado na casa de Keith Richards na França e lançado há exatos 38 anos, o disco abrange todos os estilos explorados dentro do rock and roll até então e foi descrito por FRANK ZAPPA como “um grande sopão de rock”, com todos os ingredientes necessários. Apesar de ecléticas, as 18 faixas formam um álbum coeso, talvez o mais bem-acabado do catálogo dos Stones.

“Rocks Off” abre o disco em grande estilo e já mostra que, pelo menos na parte musical, a química da banda nunca esteve tão forte. A canção foi supostamente gravada em apenas dois takes. A seguir vem “Rip This Joint”, um arrasa-quarteirão com vocais que Mick Jagger nunca mais conseguiu repetir. Duas músicas inspiradas nos cassinos de Monte Carlo fecham o Lado A: “Casino Boogie” surgiu de uma jam entre Keith Richards e Bobby Keys, e “Tumblin’ Dice” se tornou o grande sucesso que prenunciou a essência da banda daquele momento em diante: puro rock de arena.

O Lado B privilegia a música country, indicando que boa parte dessas canções teve o dedo de GRAM PARSONS. A acústica “Sweet Virginia” tem vocais nitidamente inspirados nos trejeitos do músico norteamericano e traz um belo trabalho de Mick Jagger na gaita. “Torn And Frayed” foi baseada em fragmentos que Keith e Gram estavam compondo juntos.

Abrindo o Lado C, “Happy” é cantada por Keith Richards e foi composta rapidamente na varanda de sua mansão em Nellcôte quando o guitarrista soube que a esposa estava grávida novamente. “Ventilator Blues” é um dos raros casos em que Jagger e Richards cederam direitos autorais a outro integrante da banda. A canção de fato nasceu de um riff criado por Mick Taylor e teve a letra inspirada num ventilador que aliviava o calor de uma noite quente. Bobby Keys colaborou com a batida rítmica da música, batendo palmas fora do tempo para que Charlie Watts executasse os compassos corretamente.

O Lado D encerra o álbum com o rock acelerado de “All Down the Line” e mais uma cover de ROBERT JOHNSON (os Stones já haviam gravado “Love in Vain” no disco Let It Bleed). Em seguida inovam mais uma vez com uma típica canção gospel (“Shine a Light”), para fechar com a nervosa “Soul Survivor”, de Keith Richards. O guitarrista, figura central durante as gravações do álbum, foi o principal responsável pela riqueza musical na composição e produção de Exile On Main St..

Apesar de lançado originalmente em vinil duplo, hoje se nota que Exile On Main St. poderia muito bem ter sido um disco triplo. Algumas das faixas inéditas incluídas no relançamento são clássicos instantâneos e fica difícil entender como pode ter “faltado espaço” para elas. Seja como for, agora não importa mais. Sorte de quem viveu até hoje para ver este tesouro ser desenterrado.

Os primeiros acordes de “Pass the Wine (Sophia Loren)” sugerem uma produção relaxada, típica de uma demo. No entanto, a música ganha pegada e estilo à medida que o arranjo cresce. O refrão é uma ode à tríade sexo, drogas e rock n’ roll: “I’m glad to be alive and kicking / I’m glad to hear my heart’s still ticking / So pass me the wine, baby, and let’s make some love” (“É bom saber que estou vivo e curtindo / É bom saber que meu coração ainda está batendo / Então me passa o vinho, baby, e vamos fazer amor”).

“Plundered My Soul” não é somente uma boa canção, mas uma pérola pop. Daquelas que te conquistam logo na primeira audição, te fazem cair da cadeira e espernear loucamente pelo fato de eles terem demorado 38 anos para mostrá-la ao público. Gravada em 1971 para entrar em Exile On Main St., não se sabe por que uma música tão cativante ficou fora do álbum. Além do primoroso arranjo das guitarras, destaca-se o impressionante poder vocal de Mick Jagger no seu auge como cantor. A canção ainda foi abrilhantada pelas impecáveis contribuições de Lisa Fisher e Cindy Mizelle, atuais backing vocals dos STONES.

Na sequência, “I’m Not Signifying” é um blues cadenciado e grudento, encrementado com belos solos de guitarra, sax e gaita. “Following The River” é uma daquelas baladonas em que o piano de Nicky Hopkins faz a cama para a voz de Mick Jagger deitar e rolar. “Dancing In The Light” é construída em cima da marca registrada dos ROLLING STONES: a combinação do vocal rasgado de Mick Jagger com os riffs ganchudos de Keith Richards. A primeira metade do CD bônus traz uma sequência arrebatadora de canções, que se destacariam em qualquer álbum da discografia dos STONES.

So Divine (Alladin Story)” é ao mesmo tempo exótica e chicletuda, talvez tenha sido deixada de lado porque o riff introdutório lembra vagamente o começo de “Paint it, Black”, de 1966. Em seguida aparecem versões alternativas de “Loving Cup” e “Soul Survivor”, esta cantada por Keith Richards. Ambas revelam a influência de GRAM PARSONS no som da banda, especialmente no jeito de cantar. A sensacional “Good Time Woman” tem um bom motivo para ter sido descartada: é uma clara versão embrionária de “Tumblin’ Dice”. A rápida jam instrumental “Title 5” fecha o CD bônus em grande estilo, com um rock vigoroso e dançante.”

Vitor R. E. Aleixo, publicitário, 47 anos, ex-produtor do programa “Arquivo Pop”, da Rádio Cultura FM de Amparo, 102,9MHz; atualmente, produz o programa “Wooly Bully”, na Rádio Rock Clube, no site: www.radiorockclube.net.

2112 – O Álbum que Alçou o Rush ao Estrelato do Rock And Roll

O Rush estava na estrada há um bom tempo. Tinha trocado de baterista e já havia lançado três álbuns… Mas, em 1975, a fama ainda era um objeto de desejo para o grupo.

A banda havia sido formada em 1968, em Toronto, no Canadá, por Jeff Jones, baixista e vocal, Alex Lifeson, guitarras e John Rutsey, batera. O nome “Rush” foi ideia de um irmão de Rutsey.

Logo Jeff Jones deixaria a banda, sendo substituído por Geedy Lee, um amigo de Alex Lifeson. Após algumas mudanças na formação, o grupo se consolida com Lifeson, Rutsey e Lee. Com essa formação, lançam de forma independente seu primeiro disco, chamado “Rush”, em 1974.

Em meados daquele ano, John Rutsey deixou a banda devido aos seus problemas de saúde. A banda então começou a procurar um batera para substituí-lo. Logo, a fama de um certo baterista chegou aos ouvidos do produtor do grupo, que foi até a fazenda onde Neil Peart morava. Neil havia tentando a sorte na Inglaterra, onde havia morado e tocado em alguns grupos de rock. Decepcionado, voltou para o Canadá e provavelmente teria abandonado a música se não fosse convidado para uma audição no Rush.

A entrada de Neil Peart no Rush marcou também uma nova fase para o grupo. Pois Neil, além de tocar muito bem bateria – alguns fãs dizem que ele toca muito melhor que John Rutsey – ele passou a compor as letras das músicas que eram feitas por Geedy Lee e Alex Lifeson.

A união desse tour de force deu seu primeiro resultado com o lançamento do álbum “Fly By Night”, em fevereiro de 1974, por uma grande gravadora (Mercury Records). A novidade do álbum era, além do novo baterista e letrista, o som que a banda apresentou, que deixou de ser apenas hard rock como no primeiro álbum, e se misturou com o rock progressivo, se transformando na assinatura sonora do Rush. Apesar disso, o álbum não agradou nem ao público e muito menos a crítica.

Neste mesmo ano, o grupo ainda lançaria “Caress Of Steel”, que desagradou ainda mais ao público e foi massacrado pela crítica. Parecia que a carreira do Rush estava fadada ao fracasso.

Então, pressionados pela gravadora, pressionado pelos empresários e frustrados com eles mesmos, o grupo entra em estúdio para gravar um novo álbum; era tudo ou nada.

O álbum começou a ser concebido quando Neil Peart, que era fã dos livros de Ayn Rand, se inspirou nos escritos libertários desta autora e compôs a faixa título do disco, uma música de mais de vinte minutos dividida em sete segmentos. Quando foi lançado, a música “2112” ocupava todo um lado do vinil, que continha no chamado Lado B, ou Lado 2, músicas que até hoje são as preferidas dos fãs da banda.

“2112” o álbum, lançado em 1º de abril de 1976, seguia o mesmo caminho de seus antecessores “Fly By Night” e “Caress Of Steel”. Porém, a mistura de hard rock e rock progressivo, que caracterizava o som da banda, neste álbum, finalmente havia se cristalizado.

Após seu lançamento, o álbum foi bem recebido pelos fãs. Pórem, a crítica continuou não gostando do trabalho da banda. Alheios aos críticos, o Rush seguiu seu caminho muito particular, gravando álbuns e compondo suas músicas e produzindo disco que até hoje fazem a cabeça dos fãs.

A tão sonhada fama havia chegado enfim para os membros do grupo. E foi com “2112” que os canadenses do Rush ganharam o mundo e escreveram seus nomes na história do Rock And Roll para sempre.

 

 

Faixas Comentadas

 

  • 2112” – A música que abre e dá nome ao disco é um épico futurista de mais de 20 minutos, divida em sete partes: I) “Overtune”, II) “Temples pf The Syrinx”, III) “Discovery”; IV) “Presentation” V) “Oracle: The Dream”, VI) “Soliloquy” e VII) “The Grande Finale”. Neil Peart se inspirou no livro “Anthem”, um romance futurista da escritora Russa, Ayn Rand. A letra fala de um homem que lidera uma revolução através da música e enfrenta os Sacerdotes do Templo de Syrinx, que governavam o mundo naquele ano de 2112. Alguns críticos dizem que a música refletia a frustação do grupo em relação à indústria da música. O curioso no caso desta música é que a gravadora só aceitou o álbum porque as outras cinco músicas que compõem o disco, e não tem nada a ver com a história narrada em “2112”, teriam, segundo eles, potencial comercial. Porém, foi justamente “2112” o maior sucesso comercial do disco. Não extamente a música inteira, mas um single de 6 minutos e 45 segundos contendo as partes de “Overtune” e “Temple of The Syrinx”. Quem quiser saber mais sobre essa música, acesse: http://whiplash.net/materias/curiosidades/112017-rush.html;
  • A Passage To Bangkok” – Essa música que abre o Lado 2 do álbum, posse ser descrita como um passeio turístico em rotas do tráfico de maconha como Colombia, México, Jamaica, Marrocos, Tailândia, etc. Onde o turista pode sentir seus odores e respirar suas “doces fragrâncias”;
  • The Twilight Zone” – Essa canção foi inspirada em dois episódios de uma série de TV americana com o mesmo nome (no Brasil veio com o nome de Além da imaginação), que fez muito sucesso nos Anos 70;
  • Lessons” – Essa música para mim fala sobre as lições que a vida nos ensina, de doces lembranças e de às vezes estarmos muito perto de perder o rumo de nossas vidas;
  • Tears” – Uma linda canção com um arranjo suave e por vezes muito triste;
  • Something For Nothing” – Para mim esta é uma das músicas mais bacanas do Rush. Um rock que começa calmo e de repente se transforma num poderoso rock and roll, com uma pegada incrível. A letra – bastante otimista – fala que as coisas importantes estão dentro da própria pessoa. O verso final diz: “na sua cabeça está a resposta / deixa ela te guiar adiante / deixe seu coração ser a âncora / e o batimento sua própria canção”.

 

Vitor R. E. Aleixo, publicitário, 47 anos, ex-produtor do programa “Arquivo Pop”, da Rádio Cultura FM de Amparo, 102,9MHz; atualmente, produz o programa “Wooly Bully”, na Rádio Rock Clube, no site: www.radiorockclube.net.

The Dark Side Of The Moon: Explorando o Lado Sombrio do Arco-Irís

O Pink Floyd foi criado no final dos Anos 60 por quatro jovens estudantes de arte: Syd Barrett, Roger Waters, Nick Mason e Richard Whrite. Eles faziam um som psicodélico e tocavam em bares underground em Londres naquela época.

A fama no cenário underground levou-os a gravarem seu primeiro disco em 1967, iniciando assim uma carreira musical que arrebataria fãs pelo mundo todo.

Porém, o grupo sofreu um revés naquele mesmo final dos Anos 60 que poderia ter acabado com os sonhos de continuar na estrada. Syd Barrett, líder e principal compositor da banda, teve problemas psicológicos que o levaram a ter que deixar o grupo que ele havia criado e batizado com o nome de dois blueseiros americanos: Pink Anderson e Floyd Concil.

No lugar de Barrett a banda efetivou David Gilmour, amigo e colaborador que já estava segurando a onda fazendo a segunda guitarra nas apresentações ao vivo do grupo.

Reformulado, o Pink Floyd seguiu em frente na procura de seu novo caminho. O grupo foi deixando de lado o som e as letras psicodélicas nos álbuns que se seguiram e que foram gravados entre 1968 e 1973, quando lançaram aquele que seria o álbum que alçaria o grupo ao panteão das maiores bandas de rock da história: The Dark Side Of The Moon.

O Pink Floyd era uma banda underground ainda quando lançou Dark Side em 1º de março de 1973. Apesar do reconhecimento da crítica, o grupo ainda não tinha atingido o grande público até o lançamento do álbum.

Dark Side começou a ser germinado quando o grupo se reuniu na casa de Nick Mason para discutir a criação de um novo álbum. Na ocasião, eles gravaram uma lista de coisas que os preocupavam. Tempo, dinheiro, loucura e morte eram algumas destas preocupações. Também preocupava a banda, principalmente David Gilmour, o fato das canções serem menos diretas, explorando temas que estavam longe da compreensão das pessoas comuns. Estas gravações foram combinadas com algumas ideias sonoras e algumas sobras do material apresentado para a trilha sonora do filme Zabriskie Point, do diretor Michelangelo Antonioni. Batizada primeiramente de Eclipse (A Piace For Assorted Lunatics), as músicas começaram a ser apresentadas como uma suíte ao público nos shows da banda em 1972. Depois, acabaram mudando o nome para Dark Side Of The Moon (A Piece For Assorted Lunatics). E em 17 de fevereiro de 1972, o Pink Floyd apresentou as músicas do novo álbum num concerto no Teatro Rainbow exclusivo para jornalistas. Ao final, a avaliação foi favorável por quase todos os presentes.

O álbum então foi gravado nos famosos estúdios Abbey Road, e produzido por Alan Parsons, que já havia trabalhado com a banda no álbum Atom Mother Heart, lançado em 1970. O Pink Floyd utilizou a mais moderna tecnologia disponível até aquele momento, o sistema Quadrifônico e a Gravação Multicanal, para conceber o disco que até hoje é tido como revolucionário neste sentido.

A capa do disco também era uma coisa à parte. Concebida pelo design Storm Thorgerson, traz um prisma sendo atravessado por uma luz branca que depois se transforma nas cores do arco-irís. A banda queria uma coisa simples, audaciosa e dramática. Thorgerson concebeu a capa justificando que a luz branca seria a própria luz irradiada pela banda, que passa pelo prisma, inspirada nas pirâmides do Egito, revelando toda ambição e cobiça do ser humano.

Após o lançamento, Dark Side vendeu mais de um milhão de cópias só nos Estados Unidos. Esse sucesso repentino nos EUA, principal mercado a ser conquistado por qualquer banda de rock naquela época, se deve a dois fatores: a fama que o grupo angariou devido as suas apresentações ao vivo, e pelo fato da gravadora Capitol, subsidiária da Harvest, ter lançado um single com a música “Money”. Fato esse que deixou os membros do Pink Floyd irritado, uma vez que o grupo se recusava terminantemente a lançar singles de suas músicas.

A importância de Dark Side não se limita somente aos números de discos vendidos até hoje, mais de 30 milhões no mundo todo. Ela se deve principalmente ao fato do álbum ter sido uma grande influência para muitas bandas de rock e, principalmente, para muitas pessoas ao redor do mundo.

Nas palavras de David Gilmour, Dark Side representou a conquista do mundo, o auge da banda e o começo do fim. Assim como o arco-íris leva ao pote de ouro, Dark Side transformou radicalmente a vida dos membros da banda. E o tilintar das moedas no início da canção “Money”, metaforicamente, parecia anunciar que dali pra frente nada mais seria como antes. Logo, as disputas internas, as brigas, turnês caríssimas e lucros exorbitantes levariam o Pink Floyd a se tornar uma das maiores atrações do show bussines, e por conseqüência, vítima de sua própria ambição.

 

Antes de comentar as faixas do disco, vale ressaltar que Dark Side acabou sendo gravado na íntegra numa versão Reggae chamada de Dub Side Of The Moon, por um grupo de famosos músicos de Reggae. E também, recentemente, pelo grupo The Flaming Lips, que havia se declarado fortemente influenciado pelo Pink Floyd.

Uma outra coisa a ser dita é o fato de algumas pessoas comentarem sobre a sincronia do disco com o filme O Mágico de OZ, chamado de The Dark Side Of The Rainbow. Vários artigos foram escritos e na internet é possível encontrar muita coisa a esse respeito. E quem se interessar por esse assunto e outros relacionados às músicas do Pink Floyd, não só do Dark Side, eu recomendo a leitura de “Pink Floyd e a Filosofia”, um livro de George A. Reisch, lançado pela editora Madras, que reúne vários artigos de filósofos modernos que abordam as questões filosóficas contidas na obra do grupo.

 

 

Faixas Comentadas

 

  • Breathe” – Essa música foi criada a partir de uma ideia de Richard Wright, que se inspirou num disco de Miles Davis, chamado Kind Of Blue. A letra, assim como todas as letras do disco, foi composta por Roger Waters, e fala basicamente sobre pessoas preparadas para não ceder, e viver a vida de forma intensa. Em dado momento a letra traz uma citação ao filme O Mágico de OZ;
  • On The Run” – Essa música foi construída a partir de algumas notas modificadas num Sintetizador AE. Também foram incorporadas sons de sirene, passos de pessoas, ruídos da rua, etc. Tudo para dar uma ideia de movimento e futuro. O álbum todo é recheado de sons, falas, vozes, risadas, como se fosse uma coisa viva, pulsante, como a batida de um coração no início de “Speak To Me”, que abre o disco. Roger Waters escreveu um monte de questões em cartelas que eram mostradas as pessoas, técnicos da equipe, porteiros e pessoas que estavam no estúdio. Até mesmo Paul MacCartney e a banda Wings participaram desta brincadeira que acabou recheando e aparecendo ao longo do disco. As vozes, segundo Roger Waters, é que trouxeram o lado escuro ao disco;
  • Time” – Essa música recebeu um incremento extra, pois o produtor Alan Parsons sugeriu à banda que utilizassem os sons de vários relógios que ele havia gravado recentemente. A introdução desta música chegou a ser utilizada aqui no Brasil numa série de TV nos Anos 70 chamada “Além da Imaginação” (The Twilight Zone). A letra fala sobre a pessoa ser dona do seu próprio destino, “de segurar as rédeas do seu destino”, segundo Roger Waters;
  • The Great Gig In The Sky” – Esta também foi uma música criada a partir de uma seqüência de acordes que Richard Wright tocou aleatoriamente ao piano. O lado A do disco estava todo pronto, mas a banda achou que poderia inserir ainda mais alguma coisa. Então, pediram para a cantora Clare Torry, umas das quatro cantoras que fizeram backvocals em algumas faixas do disco, improvisar sobre o tema que Rick Wright tinha criado. “Pense na morte, no horror, em qualquer coisa… Vá lá e faça!”, foi o pedido feito pelo produtor Alan Parsons. Assim, Clare gravou numa tomada só os vocais da música, que é uma das mais bonitas e sinistras do disco;
  • Money” – Esta música nasce de um blues que Roger Waters gravou ao violão. Uma curiosidade nesta canção é que seu riff principal ser em compasso7/8 (sete por oito) um tempo musical muito raro especialmente para rock e pop em geral, mais comumente tocados em compassos de 4 tempos (o famoso 4/4 – quatro por quatro). O Pink Floyd não vendia bem seus discos na América. Assim, a gravadora Capitol, subsidiária da Harvest, gravadora do grupo, investiu numa campanha de marketing pesada, que inclua o lançamento desta música em single, o que a banda relutou em fazer, mas no final teve que aceitar. O hit se tornou um enorme sucesso e alavancou as vendas do álbum nas terras do Tio Sam. O contraditório nesta história é que a letra faz uma crítica feroz ao capitalismo, enquanto que a banda e sua gravadora se valiam de algumas ferramentas deste sistema para fazer muito dinheiro;
  • Us And Them” – Essa música aparece pela primeira vez por volta de 1969, não com o nome que acabou ganhando. Ela foi apresentada para o diretor de cinema Michelangelo Antonioni, e seria utilizada no seu filme Zabriskie Point. Porém, o diretor não a utilizou, e disse: “É linda mas muito triste; me faz pensar em igreja”. Durante muito tempo ela permaneceu esquecida e não foi utilizada em nenhum dos álbuns anteriores a Dark Side. David Gilmour disse: “ela estava esperando para renascer neste disco”. Richard Wright se lembrou dela e logo Roger Waters providenciou a letra que fala basicamente da questão filosófica da raça humana ser capaz de ser humana. Waters, aliás, tem uma tese sobre o sucesso desta música: “Toquei metade do compasso e deixei um compasso e meio vazio… é por isso que a canção funciona”;
  • Any Colours You Like/Brain Damage/Eclipse” – Estas três músicas na seqüência tem tudo a ver com Syd Barrett. Todas fazem referência a problemas mentais e loucura. Sobre “Brian Damage” Roger Waters disse que se trata da noção de defender o direito a ser diferente. E ao final de “Eclipse”, uma das muitas vozes do disco diz: “Não existe o lado escuro da lua, na verdade ela é toda escura”. E o disco termina com o mesmo batimento do coração, e a mesma sensação e incomodo que é o álbum todo. O mesmo Waters disse que o disco tenta expressar seus sentimentos sobre as coisas; simplesmente. Ele acha que, musicalmente, as músicas são levadas por esse sentimento emocional, por isso que o disco fez tanto sucesso e chegou tão longe, pelo fato dele estar muito próximo à vida cotidiana das pessoas ao redor do mundo.

 

Vitor R. E. Aleixo, publicitário, 47 anos, ex-produtor do programa “Arquivo Pop”, da Rádio Cultura FM de Amparo, 102,9MHz; atualmente, produz o programa “Wooly Bully”, na Rádio Rock Clube, no site: www.radiorockclube.net.

Black Sabbath: a invenção do Heavy Metal

Birmingham, cidade industrial da Inglaterra, final dos Anos 1960. Quatro jovens pobres resolvem montar uma banda de rock e tocar nos bares da cidade. Em suas cabeças havia o sonho de que a música pudesse dar-lhes um futuro melhor; longe do mesmo destino da maioria dos seus moradores, que acabavam trabalhando nas fábricas da cidade.

O grupo era formado por Tony Iommi, Terry “Geezer Butler, Bill Ward e John “Ozzy” Osbourne, e chamava-se Earth. Porém, logo tiveram que mudar de nome, uma vez que descobriram que já exista uma outra banda com esse mesmo nome.

Ozzy Osbourne conta em sua biografia (Eu Sou Ozzy, editora Benvirá), que ele e Geezer Butler foram assistir a um filme chamado “Black Sabbath” (aqui no Brasil esse filme ganhou o nome de “As Três Máscaras do Terror”), estrelado por Boris Karloff. Então, eles perceberam naquele dia que as pessoas se interessam e até estão dispostas a pagar para se assustarem. Logo em seguida, Geezer Butler teve um sonho onde ele via um demônio no pé de sua cama, e aquilo tinha lhe trazido muito medo. Então, ele escreve os primeiros versos de uma canção que veio a se chamar “Black Sabbath”.

O grupo que já tocava “pesado”, para os padrões da época, começou a compor músicas mais realistas, falando de guerras, mortes e recheadas de ocultismo, que estava muito em voga naquela época. Assim, por volta de 1969, eles resolvem assumir o nome de Black Sabbath. E, em janeiro de 1970, finalmente eles conseguem um contrato para gravar seu primeiro disco. Segundo Ozzy, o nome Black Sabbath fez muita diferença, uma vez que tudo que era relacionado com o “lado escuro” vendia.

Sobre as gravações do álbum, Tony Iommi disse: “Entramos no estúdio e fizemos tudo num dia só: tocamos nosso repertório daquele tempo e pronto. Nunca fizemos uma segunda versão da maior parte do material.”.

Com um prazo tão apertado, o resultado final foi que o álbum ficou com uma crueza poucas vezes ouvida no rock and roll. Tony Iommi, que havia sofrido um acidente e perdido as duas pontas dos dedos da mão direita, resolveu gravar as guitarras do álbum meio tom abaixo (mi bemol), o que acentuou ainda mais o som opressivo do disco.

Enquanto o grupo continuava suas apresentações em bares e casas noturnas, em 13 de fevereiro de 1970, uma sexta-feira, é lançado o disco “Black Sabbath”.

A começar pela capa, onde uma mulher com ares de bruxa é fotografada numa paisagem bucólica, depois, as sete canções que compõem o álbum não deixavam dúvidas de que aquele disco não era simplesmente mais um disco de rock; era, na verdade, um divisor de águas, considerado hoje como a Pedra Fundamental do Heavy Metal.

Logo, a canção “Black Sabbath” começou a tocar no programa Radio 1, da BBC, o que ajudou muito a banda a ficar mais conhecida.

Após o disco ser lançado, a recepção da crítica não foi das melhores, nem na Inglaterra e tão pouco nos Estados Unidos. Lester Bangs, famoso crítico da revista Rolling Stone, disse que o álbum era pretensioso, mal gravado, e que o Black Sabbath era como o Cream, banda de Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker, só que muito pior. Ao longo de todo sua carreira, o grupo iria agradar sempre mais ao público do que aos críticos.

A importância do disco só foi sendo percebida com o passar do tempo e com a quantidade de bandas que foram surgindo tendo como referência o Black Sabbath. Além disso, o som da banda não havia nascido de um desdobramento de um outro gênero, como por exemplo, o Rock Progressivo, que nasce a partir do som psicodélico. Não, o que fora criado por Tony Iommi, Ozzy Osbourne, Geezer Butler e Bill Ward, deve-se à ousadia e a criatividade deles mesmo, que souberam catalisar em suas músicas toda uma insatisfação com a vida e o mundo do seu tempo. “Nossa música é uma reação a toda essa babaquice de paz, amor e felicidade. Os hippies ficam tentando te convencer de que o mundo é uma maravilha, mas é só olhar ao redor para ver em que merda nós estamos“, disse Ozzy.

 

Faixas Comentadas

  • Black Sabbath” – A canção abre o disco com seu clima sombrio, trovoadas e as notas sinistras do seu refrão, e traz na letra uma referência ao sonho de Geezer Butler, onde uma pessoa é perseguida por um demônio. Muitos críticos e principalmente religiosos acusam a banda de fazer apologia ao Diabo. O riff foi construído com uma progressão harmônica, incluindo uma quinta diminuta. Esse intervalo era chamado na Idade Média de “Diabolous in Musica”, pois devido ao seu alto grau de dissonância  sugeria conotações satânicas (falta de harmonia, feiura) em contraposição com combinações sonoras consonates (harmonia, beleza) para os padrões estéticos musicais da época. Muitas bandas de Heavy Metal tem se utilizado deste intervalo em suas canções. Segundo Geezer Butler, essa canção teve o riff inspirado em “Mars, The Bringer of War”, o primeiro movimento da música “Suíte The Planets”, do compositor inglês Gustav Holst;
  • N.I.B” – Traz uma letra que sugere a entrega ao senhor das trevas, Lúcifer. Apesar de todos acreditarem que a sigla signifique: Nativ On Black, segundo a banda, ela é na verdade uma referência ao apelido de Bill Ward por causa de sua barba, que era parecida com uma ponta de caneta (pen nib),em inglês. Essa música apresenta um efeito de Wah-wah no baixo, em sua introdução, uma inovação para a época;
  • Evil Woman” – A música que é uma cover de uma banda americana de blues rock chamada Crow, foi lançada primeiramente como single em dezembro de 1969, depois foi incorporada ao disco;
  • Behind The Walls of Sleep” – Essa música fora inspirada num livro do escritor H.P. Lovecraft, que morreu em 1937. Os trabalhos deste autor são profundamente pessimistas e cínicos, muitas vezes contrários aos valores do Iluminismo e do Cristianismo. Sua obra é exclusivamente sobre o horror, tendo a finalidade de perturbar o leitor. Diversas bandas de Heavy Metal se inspiraram em suas histórias;
  • Warning” – Esta música foi inspirada numa canção de Aynsley Dunbar, chamada “Retalation”. Em dado momento, somente a guitarra de Iommi é ouvida, os outros instrumentos silenciam. Então, ele dá mostras de sua incrível capacidade de criar riffs, pois, o que ele toca poderia ter sido transformado em um monte de outras músicas;
  • Wicked World” – Esta música ficou de fora do disco lançado na Inglaterra e aqui no Brasil. Nos EUA, o álbum foi lançado com ela. Posteriormente, ela foi incluída também quando lançado em CD.

 

 

Vitor R. E. Aleixo, publicitário, 47 anos, ex-produtor do programa “Arquivo Pop”, da Rádio Cultura FM de Amparo, 102,9MHz; atualmente, produz o programa “Wooly Bully”, na Rádio Rock Clube, no site: www.radiorockclube.net.