Archive for julho, 2011

Quanto tempo devo estudar?

Olá amigos, está aí uma pergunta das boas! Quantas vezes já ouvi alunos perguntarem sobre as lendárias 8h ou até 12h por dia de estudos apregoadas por diversos guitar heros em entrevistas, workshops, etc.

Ou mesmo, ao contrário, há aqueles que tocam tão bem que nos dão a impressão de serem adeptos das maratonas de estudos citadas acima, mas, no entanto, dizem não fazer lá muito esforço para tocarem tudo o que tocam.

Em meio a estes dois extremos como se posicionar? Qual a forma ideal de manter os estudos para evoluir no instrumento e nos conhecimentos musicais?

Creio que vale a pena observar se existem mitos sobre estas posturas.

A respeito de quem diz estudar (ou tocar) tantas horas por dia há quem diga que é balela. Conheço inclusive uma citação atribuída ao um dos maiores violonistas eruditos do século XX, Andrés Segóvia, que teria dito algo mais ou menos assim: “Quem diz que toca 12 horas por dia ou é mentiroso ou é louco”.

Bem, pessoalmente não creio que André Segóvia tenha dito algo assim, pois é fato conhecido que para alcançar a perfeição técnica exigida pela música erudita, e ainda no nível a que ele chegou para ser destaque mundial, são necessários muitos esforços que certamente em algum momento da vida dele se traduziram em longas jornadas de ensaios e exercícios. Ou seja, valendo-me de minha própria experiência no assunto e conhecendo de perto tantos outros exemplos posso lhes afirmar: há sim quem pratique de 6h ou mais por dia o seu instrumento. Não é mito e ponto final.

Exagero? Idiotice? Certamente não. Basta comparar com as demais atividades e percebemos que se dedicar com afinco, empregando várias horas do dia para atingir excelência no que se propôs, ou simplesmente, dedicar-se a uma atividade na qual encontra prazer e satisfação pessoal, isso está longe de ser algo criticável ou não desejável!

Vejamos: quem não conhece algum garoto (às vezes nem tão garoto assim) que passa, não raro, mais tempo que isso jogando vídeo game praticamente todos os dias? Assistindo televisão? Quantas horas por semana muitas pessoas não dedicam a chats via MSN e afins, sem ter necessidade nenhuma disso, apenas por lazer ou hábito? Isso quanto à parte recreativa de nossas vidas, e quanto à profissional? Quantas horas um adolescente dedica por dia, somadas as horas em que está no colégio ou cursinho ao tempo que está estudando e fazendo lições em casa durante os anos que precedem o famigerado vestibular? E durante a faculdade? Quantas horas o futuro profissional dispensa entre aulas, estudos, trabalhos e pesquisas ao longo do dia durante anos?

Outra referência importante: uma jornada de trabalho normal consiste de 8 (longas) horas diárias e frequentemente as pessoas excedem esse tempo.

Pois é, as 6, 8, 12 (ou até mais em alguns casos) horas dispensadas em uma única atividade não representam nenhuma novidade ou caso estranho em nosso cotidiano. Por que encanar justamente com o músico profissional ou amador? “Que maluco! Fica o dia inteiro com essa guitarra na mão! Sai dar uma volta! Que isso!”. Alguém imagina uma mãe falando isso para o filho em época de vestibular? É mais fácil ocorrer o contrário: “O que você está fazendo que não está estudando!? Já pegar o livro!”. E por ai vai…

Ser um profissional em qualquer atividade demanda anos de esforço e muitas horas de trabalho. E com música não é diferente. Simples assim. Além do mais quando se está fazendo algo pelo qual se é apaixonado, não se vê as horas passando. A atividade musical facilmente encontra estas duas coisas acontecendo simultaneamente, uma benção para nós músicos, mas que infelizmente muitas pessoas não experimentam em suas atividades.

E o caso de superinstrumentistas afirmarem não se esforçarem muito. Será verdade? Aí entra outra história que atende pelo nome de marketing pessoal. Quero dizer com isso que quando um artista se lança na mídia e vai de encontro ao público ele cria e passa a trabalhar uma imagem, um personagem que pode mesmo não ser lá muito parecido com o que, de fato, aquele músico é como pessoa no seu dia-a-dia pessoal. Portanto pode haver diferença entre o que estas pessoas dizem em entrevistas (momento no qual estão encarnando seus “personagens”) e o que verdadeiramente se passou ou se passa em relação a vários assuntos, entre eles naturalmente a sua preparação técnica, sua formação.

Vejamos uns casos. No meio erudito pega bem dizer que estuda muito, aliás, erudição sem muito estudo é algo difícil de conciliar, uma coisa leva a outra. O músico estudou muito mesmo e toda vez que perguntarem sobre sua formação é exatamente o que ele vai dizer. Neste caso, o personagem do artista vai de encontro a realidade, portanto ao há necessidade de inventar ou omitir coisas. Já no meio popular, no qual tudo se foca muito na figura do showman, as coisas podem mudar de figura a cada contexto em que está inserida a carreira do músico.

Assim, quando questionado sobre sua formação e seus esquemas de estudo tanto pode ser interessante para ele falar sobre seus longos anos de estudos e os nomes dos grandes mestres que ele teve quanto, ao contrário, alardear uma fama de autodidata ou mesmo de sujeito-que-nasceu-para-ser-estrela. A melhor opção para se apresentar ao público depende das regras do show business! Para qual faixa etária ele se dirige? Qual a imagem tradicionalmente apresentada pelos artistas consagrados do ritmo que ele toca (rock, funk, jazz, MPB, etc.)?

Para cada contexto de carreira, optar por explorar uma imagem de super estudioso ou de “nasci pronto” pode ser decisivo para cativar ainda mais a admiração de seu público. Não precisa ser necessariamente a verdade.

Sim, isso existe. Dizer que aquele trecho dificílimo da música não te deu trabalho pra executar pode ser uma enorme mentira, mas quem pode provar o contrário? E que impressiona, claro que impressiona. E postura pesa muito no meio pop.

Há uma cena didática sobre esta postura no filme “Rock Star”, de 2001, que conta a história de um simples rapaz que tem a oportunidade de substituir o vocalista original (um excelente vocalista, conhecido pela capacidade de alcançar notas muito altas) de uma banda mundialmente famosa da qual ele é fã, e da qual possui uma banda cover.  Durante uma entrevista coletiva, após conseguir o posto de cantor do grupo, ao responder a pergunta sobre como conseguia manter a voz em tão boa forma o rapaz responde naturalmente a verdade dizendo que a sua professora do coral lhe passava uns bons exercícios. Neste exato momento, o líder do grupo que estava sentado ao seu lado o interrompe “corrigindo” a resposta: “É porque ele faz muito sexo…”. Assim, aprendida a lição, o novato cantor reafirma: “É, é porque eu faço muito sexo”.

No exemplo acima, o cantor certamente tinha talento, claro, mas devia ao menos boa parte de seu desempenho a treino e estudos, porém segundo o que percebemos na cena, para aquele personagem que ele deveria passar a encarnar a partir dali, isso não era o mais interessante de se dizer. Pega melhor trabalhar uma imagem radical, rebelde e um estilo de vida agressivo, não uma imagem de “CDF”.

Sim, meus amigos, isso existe e o exemplo poderia ser totalmente o contrário mudando o estilo e o contexto. Ainda daria pra citar mais alguns exemplos da vida real mesmo, mas não vou me estender ainda mais.

Embora existam muitas pessoas talentosas que conseguem extrair melhores ou mais rápidos resultados de suas horas de estudo, ninguém verdadeiramente “detona” em seu instrumento sem passar um tempinho considerável com ele nas mãos.

O que devemos fazer então? Primeiro não da pra esperar uma “receita de bolo”, ou seja, não da para falar em um número exato de horas que é o ideal estudar/praticar por dia e passar isso para todos, pois as horas estudadas rendem de maneira muito diversa de uma pessoa para outra.

A solução então é ter como referência a suficiência do tempo de estudo em relação ao que você se propôs como objetivo (que vai depender tanto do repertório que você deseja aprender a tocar quanto do tempo que você coloca como meta conseguir tocá-lo). Estou praticando 3 horas por dia, está ok? Pode ser que sim, pode ser que não. Avalie se está sendo suficiente pra você evoluir em direção ao objetivo traçado num ritmo que lhe satisfaça. Se não estiver é melhor se programar pra aumentar a carga, se estiver com sobra, você pode até pegar mais leve, a menos que esteja curtindo. Busque naturalidade, porém não se acomode.

Apenas respeite seus limites! Não se frustre ou se sature. Para isso basta ter bom senso ao estipular seus objetivos.

Por fim, sabendo que não existem fórmulas milagrosas nem tampouco atalhos, a conclusão é que cada um analise o seu próprio caso sem se deixar levar por histórias que nem dá pra saber até que ponto condizem com a realidade. Qual tua referência, onde você pretende chegar? Sua relação com a música é amadora ou profissional? Qual sua realidade de tempo disponível em relação a suas reais obrigações do dia-a-dia? Analise tudo isso, tenha bom senso e veja o que seria adequado para você, estude a situação com seu professor e monte um programa de referência. Lembre-se que não é tanto a quantidade de horas utilizadas que vão dizer se está bom para você, a pergunta deve ser: Está suficiente? No mínimo.

Bons estudos!

Nando Moraes