Archive for dezembro, 2011

A Linguagem da Improvisação

Olá amigos!

Desta vez vou postar um texto de um grande guitarrista norte americano que também é muito ativo no meio didádito, Les Wise.

Há alguns anos tomei emprestado de meu professor à época, Aquiles Faneco, um livro de improvisação chamado Bebop Licks for guitar, de autoria do referido guitarrista Les Wise, que não teve lançamento no mercado nacional. Claro que o livro é muito bom no seu conteúdo como um compendio de licks, porém o que mais me chamou a atenção foi o prefacio do livro, um excelente texto sobre a linguagem da improvisação.

Eu sempre usei com meus alunos justamente essa abordagem que Les Wise utilizou, o que diga-se não é novidade, porém nunca havida tomado a iniciativa de coloca-la no papel, e acabei nem precisando! Tratei de trazir o texto na hora e tenho desde então passado a meus alunos sempre que estamos iniciando o aprendizado de improvisação. Agora compartilho com vocês esta tradução, que com certeza os ajudará a compreender melhor os caminhos desta maravilhosa arte me especial, a improvisação musical, e mesmo a própria linguagem musical como um todo. Boa leitura!

 

A LINGUAGEM DA IMPROVISAÇÃO

Les Wise

 Improvisação musical. Vamos definir o que isto não é. Não é a habilidade dada por Deus de inventar melodias do nada. Não vem de um raio que cai, capacitando alguém a ser um monstruoso solista. Não é um dom divino que apenas uns poucos de nós possuem porque somos especiais. O quê, então, é improvisação?

É reorganização espontânea. Pense por um momento no que estas duas palavras significam – “o rearranjo de alguma coisa que já existe”. A improvisação é aprendida de forma muita parecida com a maneira com que uma linguagem é aprendida porque improvisação musical é uma linguagem. Todos nós temos a habilidade para aprender a linguagem da improvisação; é simplesmente uma questão de direcionamento apropriado.

Vamos examinar o que uma linguagem é. Quando nós falamos, nós não inventamos instantaneamente as palavras que fluem de nossa boca. Elas já existem. Igualmente, quando solamos nós usamos padrões e idéias que já existem na linguagem da música.

Em média um formando do ensino médio deve saber aproximadamente 15000 palavras. No entanto dois indivíduos podem expressar idéias completamente distintas, pensamentos e opiniões usando o mesmo conjunto de palavras. Como isso se dá? Simplesmente rearranjando estas palavras em diferentes ordens. Se nós todos trabalhamos dentro do mesmo vocabulário estrutural básico, então é a ordem em que nós reorganizamos as palavras que dá à nossa personalidade uma singularidade que nós chamamos de nossa.

Quando nós falamos, nós geralmente o fazemos intuitivamente, e parece ser um processo automático. No entanto, se nós olharmos pra trás e analisarmos o desenvolvimento do nosso vocabulário, veremos que não é. O processo de aprender a solar é muito parecido. Deixe-me apontar algumas similaridades.

O desenvolvimento da fala, até entrarmos na escola, foi por imitação. Nossos pais falavam uma palavra ou frase, e simplesmente a repetíamos. Da mesma maneira, antes mesmo de termos um professor de música ou saber qualquer coisa sobre música, nós simplesmente imitávamos sons. Nós podemos ter ouvido uma melodia da televisão ou um comercial de rádio e tentamos imitar aquela melodia em nosso instrumento.

Na primeira série nós aprendemos uma palavra. Nós não apenas aprendemos como pronunciar aquela palavra, mas como cada letra separadamente simboliza os sons que formam aquela palavra. Nós aprendemos a soletrar a palavra e como escrevê-la na lousa. Para fins futuros e mais complicados, nós tivemos que aprender o significado da palavra e como usa-la em uma frase. O paralelo traçado com nosso instrumento é bastante obvio.  Em nossas aulas de música nós começamos a aprender sobre alguns acordes, escalas e arpejos. Nós aprendemos sobre com quais notas eles são formados, como eles soam e onde eles são usados. Nosso teste, como músicos, foi tocar perante um público – nossos pais ou amigos. Nosso teste na escola foi ler para a classe uma história escrita por nós na qual usamos as novas palavras aprendidas.

Com o começo do ensino médio, mais adições aumentaram nosso entendimento de nossa língua. Tenho certeza de que todos nós devemos nos lembrar da diagramação das frases – agora tudo aquilo não parece um monte de coisas engraçadas? Todo o tipo de linhas e setas que apontavam para todas as direções nas palavras e sob as palavras e em cima das palavras. Completamente confusos nós pensamos com nós mesmos, “então isto representa o discurso intuitivo de um ser humano se comunicando com outro? Como pode algo tão elaborado e sistematizado ser parte da simples comunicação do dia-a-dia?” No entanto conforme aprendemos sobre nossa língua, a fórmula se torna mais e mais clara, e durante o processo educacional nós pegamos palavra após palavra. Uma de cada vez elas foram adicionadas – algumas de Português, algumas de Matemática, algumas de História e algumas de Ciências. Assim nosso vocabulário cresceu tremendamente e normalmente sem muito esforço.

Agora imagine o horror se em seu primeiro dia na escola, o professor começasse pegando livros enormes e dissesse: “Aqui está um livro contendo as 15000 palavras que você precisa saber até terminar o terceiro colegial.” Você iria querer ir pra casa na hora. Porém felizmente isto não aconteceu dessa maneira, ao invés disso, nós aprendemos nossa língua um dia de cada vez. Nossa comunicação verbal foi um processo natural, crescente e intuitivo.

Como foi adicionada palavra após palavra, o processo se tornou tão tranqüilo que agora nós dificilmente poderíamos nos lembrar quando e onde aprendemos uma palavra específica. Pegue a palavra “alumínio”, por exemplo. Quando você aprendeu esta palavra? Foi na terceira série? Quinta série? Há muita chance de você não se lembrar. Como você vai pela vida adquirindo novas palavras, você não se preocupa com elas, se amarra nelas, ou as pendura no seu pescoço e constrói sua vida inteira ao redor delas. Elas gentilmente se arrastam para dentro de seu vocabulário, e você começa a usá-las intuitivamente e automaticamente.

Vamos imaginar um uso não tão automático da comunicação. Suponha que você foi para a Rússia e foi subitamente abordado por um russo na rua. As cinco palavras em russo que você memorizou no vôo até lá terão que ser suficientes para que você se comunique. Agora você não acha que sua fala vai soar programada e mecânica? Ou será expressiva, intuitiva ou automática? Estas cinco palavras em russo serão usadas e abusadas, confundidas e completamente exauridas em um minuto. Isso sem mencionar o enorme esforço que você fará na tentativa de falar estas palavras em alguma ordem coerente. No entanto, se você soubesse 15000 palavras em russo, você simplesmente relaxaria e se comunicaria. Este processo de como arranjar estas palavras não mais soaria pensado, programado, mas completamente automático, ou – improvisado.

Nós construímos nosso vocabulário em nossos instrumentos praticamente da mesma forma que nós construímos nosso vocabulário em nossa língua. Nós lentamente e gradualmente adicionamos novos licks. Alguns nós lemos, alguns nos aprendemos de discos, alguns copiamos de amigos. Nós usamos o que já existe – nós copiamos e imitamos. Você pode perguntar, “Mas como eu posso ser original e ter meu próprio estilo se eu imito outros?”. Bem, deixe me perguntar pra você, “Você rejeitou as primeiras palavras de seu pai e sua mãe porque você inventou sua própria linguagem?” Claro que não. Você não vai discordar do fato de que o objeto que leva comida até sua boca se chama colher. Nossa personalidade distinta é expressa pela ordem em que arranjamos as palavras que são comuns a todos nós. Na música, nos podemos tocar algo que soa completamente novo e único. Mas na realidade foi uma combinação de idéias que nós já conhecemos. Pode ser uma seqüência de quatro notas que aprendemos três anos atrás combinada com parte de um lick que tiramos de um disco semana passada. Nós tocamos esta idéia e acreditamos que estamos diante de algo completamente novo, e de certa forma estamos. É uma reorganização daquilo que já existia.

 

Vamos olhar para outra forma de como o vocabulário se expande. Você nunca se sentou com um grupo de amigos quando alguém usa uma palavra que chama sua atenção? Você não sabe o significado exato daquela palavra, mas você sabe que já ouviu ela em algum lugar antes, e agora pela natureza da frase que seu amigo usou você compreende instantaneamente o que ela significa. Dentro deste exato momento você pode ter percebido que gostou da palavra, fez uma nota mental dela, depois a colocou completamente fora de sua mente. No dia seguinte você estava conversando com um amigo e – “zap” – a mesma palavra veio.

Desde que você esteja praticando sempre a linguagem da improvisação musical, o mesmo processo acontecerá. Você entrará no palco, sem saber o que exatamente irá tocar, e as idéias fluirão. Você se lembrará de um lick que você ouviu de um pianista semana passada e se encontrará tocando ele. Você terá aprendido desenhos, padrões e combinações de idéias suficientes para tocar este mesmo lick que estava guardado em seu subconsciente. Ou você pode pegar algumas poucas notas deste mesmo lick e combina-las com outro lick que você aprendeu de um saxofonista cinco anos atrás. As idéias musicais já existem, mas a maneira como você rearranja estas idéias expressará seu próprio estilo e personalidade – da mesma maneira que quando você fala.

 

A sua personalidade única é a ordem em que você agrupa todas estas idéias.

 

Improvisação musical é uma linguagem, da mesma maneira que inglês, espanhol, português e alemão. Tem que ser aprendida. É claro que pode e eventualmente vai soar natural e “improvisada”, mas primeiro tem que ser aprendida da mesma maneira sistematizada com que aprendemos nossa própria língua ou da mesma maneira sistematizada com que aprenderíamos qualquer nova língua – uma palavra de cada vez. Isto soa livre e fácil, mas é alcançado através de uma vida inteira. Um novo lick ou idéia de cada vez – do que ele foi feito, onde usa-lo e o que ele diz ou expressa. Para incrementar nossa habilidade de comunicação em nosso instrumento nós incrementamos nosso vocabulário. Para incrementar nosso vocabulário nós aprendemos novos licks. Nós tocamos estes licks repetidamente até que eles se tornem hábitos – até que nossos dedos os toquem independente de nossa mente consciente – até que possamos tocá-los até dormindo, com ou sem nossos instrumentos. Repetição. De onde nós vamos tirar estes licks? Copie discos, copie amigos, copie os discos de seus amigos. De transcrições, de outros instrumentos – uma nova palavra ou frase de cada vez. Então outra e mais outra. Este é o processo através do qual nós aprendemos e expandimos a linguagem da improvisação.

 

 

The Language of Improvisation

Prefácio do livro “Bebop Licks for guitar” de Les Wise.

Tradução de Nando Moraes