Archive for janeiro, 2012

Entrevista com Steve Lukather

Olá amigos, desta vez vou postar partes de uma entrevista com um guitarrista que figura entre os grandes guitarristas da história pelo tamanho e importância de seu trabalho, mas que não é tão largamente conhecido do público brasileiro, Steve Lukather. Isso se deve em parte, creio eu, ao fato que enorme parte do trabalho de Steve ser em estúdio, tocando em gravações de outros artistas, situação na qual seu nome acaba não aparecendo ao público. Uma coisa é fato, você pode nunca ter ouvido falar dele (até agora), mas é impossível que nunca o tenha ouvido tocar, como você ficará sabendo nesta entrevista.

Além de apresentá-lo aos que ainda não o conhecem, achei interessante compartilhar esta entrevista com vocês (originalmente publicado no site americano da BOSS) por ser uma oportunidade de saber mais como pensa, quais são os valores de um músico de sucesso, não sucesso no sentido efêmero de “estrela” que nem é tanto o caso de Steve, mas sucesso como profissional que alcançou o topo pela qualidade e seriedade de seu trabalho, como vocês poderão conferir, através de muita paixão, estudo, dedicação e respeito pela música e pelos grandes artistas com quem trabalhou e por quem foi influenciado. Grande atitude. Grande cara (além de pai pra lá de coruja!).

Aqui vai o link da entrevista original.

http://www.bossus.com/boss_users_group/article.php?ArticleId=1402

E aqui vão dois links pra quem quiser conferir um pouco do homem em ação.

http://www.youtube.com/watch?v=HUHOa6binrs

http://www.youtube.com/watch?v=QGI5v1bi9VY&feature=related

Boa leitura!

 

Steve Lukather

By Paul Hanson

Tradução de Nando Moraes

 

Guitarrista, cantor, produtor e compositor Steve Lukather possui um dos mais impressionantes currículos entre todos os guitarristas da era moderna das gravações. Com décadas sendo um altamente procurado guitarrista de estúdio pelos maiores artistas da indústria musical, ele provavelmente figura em mais hits que qualquer outro guitarrista na história. Além disso, Steve fundou junto com outros virtuoses e também colegas de faculdade nos anos 1970 a banda Toto, vencedora de vários GRAMMY®, banda que continua na ativa ainda hoje.

O número de gravação em que Steve tocou é simplesmente estarrecedor, gravações para grandes nomes como Michael Jackson, Cher, Michael McDonald e Paul McCartney, apenas para citar alguns. Em www.SteveLukather.com, você encontrará uma discografia parcial que mesmo escrita em letras miúdas parece não terminar nunca.

Eu estiver com Steve por telefone numa manhã em Los Angeles depois de sua corrida matinal diária e sua sessão de exercícios pela manhã, e nós conversamos sobre sua longa e agitada carreira com a guitarra. Para ouvir nossa conversa completa além de clips de músicas de Steve acesse: www.BossUS.com/Podcasts.

A seguir confira um trecho de nossa conversa.

Eu soube que quando você era um garoto, sua mãe ganhou um piano em um programa de TV, The Hollywood Squares. É verdade?

Sim. Eu ainda tenho aquele piano. Está em minha garagem. É um pequeno piano espineta. Eu aprendi a tocar sozinho nele. Todo meu primeiro aprendizado de orquestração para piano, harmonia, teoria, composição e basicamente como tocar piano foi nele, então eu o mantive como uma pequena peça de um museu pessoal, algo assim. Eu basicamente quis guardá-lo, pois foi onde tudo começou, e talvez eu o dê para minhas crianças. Eu tenho duas gerações de filhos, de 26 anos de idade a 6 meses de idade.

Eu soube que seu filho é um guitarrista.

Meu filho Trevor tem 24 anos, e tem uma banda matadora neste momento. Eles estão indo para Londres começar a pré-produção de seu material com o filho de Jack Blade, Colin, e o neto de Elvis Presley, Ben. Eles têm umas canções ótimas e são caras jovens e bonitos. Meu filho toca muito bem, ele realmente está detonando. Ele é um grande compositor e estou realmente orgulhoso dele. Nós trabalhamos juntos (ele tocou em meu mais recente álbum). Ele vai sair tocar junto com conosco no Toto este verão. Ele é muito divertido.

Você e eu temos praticamente a mesma idade e somos grandes fãs de Beatles.

Foi onde tudo começou. Quem iria saber quando eu era um garoto ouvindo Meet the Beatles e apenas começando a tocar guitarra que eu viria a, de fato trabalhar com Paul McCartney e tocar com George Harrison e ser amigo deles e coisas assim? Era surreal.

São algumas de minhas memórias favoritas… Eu tenho algumas ótimas fotos e coisas que eu guardo em meu escritório, e eu piro: “Uau, eu realmente fiz isso.” (falando sobre seu trabalho com esses ex-Beatles). Ter completado este ciclo foi algo maravilhoso. Além de que eles são duas das mais amáveis, humildes, legais e normais das pessoas que conheço. Eu trabalhei com todas as grandes estrelas… ou não todas, mas muitas, se você olhar na minha discografia… Não há guarda-costas andando com eles. Se havia eles estavam escondidos, não havia capangas. Você entende?

George dirigiria até minha casa em um velho carro surrado. Alguém passando por ele diria “Aquele cara se parece com o George Harrison”. Só que era, entende? (risos). Ele apenas ia a minha casa, sem guarda-costas, tipo, “Ei, como vai cara?” Nós saíamos para jantar, apenas nós. Imagina, sentado na mesma mesa que Bob Dylan, George Harrison, Jeff Lynne, Jim Keltner, e eu sentado lá pensando, “se meus amigos pudessem me ver”. Eu sentado entre Bob Dylan e Geroge Harrison e pensando “Você ta brincando, cara”. Eu estava sentado entre dois de meus heróis.

Você tem algum álbum favorito dos Beatles?

Bem, Sgt. Pepper’s meio que mudou o mundo. Mas eu gosto de todos. O primeiro álbum dos Beatles foi o que me fisgou: Meet the Beatles. Imagina, eu tenho este CD em meu carro.

Mas eu preciso te contar uma coisa: Algumas gravações não deveriam ser fabricadas em CD. Tem algo sobre o vinil. Ele foi feito para o vinil. E quando é colocado secamente num CD, ele põe em evidência cada pequena falha. Você tem que entender, essas gravações foram feitas em 1963-64, a tecnologia da época era o vinil. A tecnologia digital leva o calor embora da gravação, eu prefiro as versões em vinil.

Mas Meet the Beatles of a chave do “liga” em mim, e provavelmente em cada músico de minha idade. Foi o botão “liga” que mudou o mundo, o tiro ouvido ao redor do mundo.

Para mim também.

A música ainda se mantém. A música ainda é grandiosa. As canções ainda são ótimas. Você sabe, nós vivemos na era da internet, e alguns garotos podem dizer “Beatles é um saco” ou “Hendrix não é um grande cara, ele é supervalorizado”. Como é que eles podem fazer idéia? Eles não compreendem que, em 1968, quando ouvimos Jimi e Beatles pela primeira vez foi como se alienígenas tivessem pousado em nosso quintal.

Você teria que ter vivido aquilo para realmente experimentar o que foi. Para pessoas de nossa idade, nós sabemos o impacto que isso foi. Foi como uma música de outro mundo que parecia tão inatingível. Foi assustador.

Quando você era jovem, você teve aulas com Jimmy Wyble.

Sim, isso.

Ele escreveu métodos que lidavam com coisas complexas. Eu imagino que você não aprendeu os licks de Jimmy Page com ele.

Jimmy Wyble me ensinou com ler música e coisas assim. Sabe, eu era um garoto de 14 anos cru. Eu vinha tocando desde os sete ou oito anos de idade, mas eu era um rockeiro. Eu tinha um ótimo ouvido e podia tocar rock e blues, e podia aprender coisas dos discos. Mas ele disse “Nós vamos te moer inteiro”.

Aquilo foi difícil pra mim, porque eu queria sair e detonar. Mas ele queria me ensinar as coisas, e eu tive que ficar muito, muito focado. E porque meu ouvido era muito bom, ele tocava algo para mim, e eu teria que ler. Mas, eu usava o meu ouvido, e ele dizia “você está trapaceando”. Então o que ele fazia era me passar uma lição, me passar uma música, eu levava pra casa e eu voltava na próxima semana e ele me passava uma nova música, diferente, mas do mesmo nível.

Então você tinha que Lê-la.

Aprender a ler música depois que você já toca é difícil, especialmente para guitarristas. É o único instrumento no qual você pode tocar a mesma nota em cinco diferentes lugares. No piano o Do central é o Do central. Na guitarra o Do central é tipo, um, dois, três, quatro diferentes lugares, cinco de você realmente esticar a coisa. Além disso, a afinação é em quartas e então uma terça. Eu quero dizer, a guitarra é o instrumento mais bagunçado do planeta, e é por isso que os guitarristas não são grandes leitores.

Eu li que você tocou em mais de 1500 albuns.

É o que me dizem. Eu diria uns 1000 de olhos fechados. Eu tenho feito isso por 35 anos, então não é como se eu tivesse feito isso do dia para a noite. Há uma discografia parcial em meu website. E tem um monte de coisas que eu fiz fora do radar, em outros países e coisas assim. Centenas de discos não estão lá.

 

Nos anos 1980, você esteve virtualmente na gravação de todos os hits.

Bem, eu toquei em muitas gravações de hits, muitos que as pessoas nem percebem. As pessoas não percebem que o Toto foi basicamente a banda de estúdio do álbum Thriller do Michael Jackson. Eu estive tocando no “álbum do ano” por três anos seguidos: The Dude (Quincy Jones), Toto IV, e Thriller. Sem contar outras 50 ou 60 indicações.

Eu ainda estou tocando guitarra, eu ainda tenho uma carreira de 35 anos. Eu estou bem agendado para o ano que vem, e tenho mais um monte de coisas surgindo. Eu estou mais saudável que nunca – eu parei de fumar e de beber e eu voltei pro sótão (no sentido de voltar pro quarto pra praticar). Eu tenho todo um novo equipamento. Eu estou construindo minha nova guitarra Luke III (modelo signature de Steve, fabricado pela marca Ernie Ball. – nota do tradutor). Eu tenho um par de Bogner Ecstasys, e tenho uma pequena pedaleira de pedaizinhos, sem racks… bem orgânico. Eu uso um cabo (não sistemas sem fio).

Eu uso um monte de coisas da BOSS. O que eu faço nos estúdios agora é carregar uma mochila, e não levo de fato um pedalboard, eu levo minha guitarra e uma mochila cheia de pedais. E BOSS representa a maior parte da mochila quando eu estou numa sessão de gravação. Eu realmente não uso muito efeito hoje em dia. Estou muito mais orgânico.

(…)

Quando você vai para uma sessão de gravação, tem partituras das músicas lá?

Nem sempre. Quero dizer, você precisa saber ler música, mas havia uns caras que faziam trilhas para cinema e TV que eram muito bons nisso, e esses caras ainda estão trabalhando. É uma mentalidade completamente diferente. Eu me enrolava nisso e era terrível. Eu passei por isso, mas não curti.

Eu fui contratado para preencher os espaços em branco. Eu pegava uma folha em branco e de repente em dois segundos eu vinha com um gancho. A maioria das partes rítmicas que você ouve nas coisas d Michael Jackson e Quincy Jones são todas coisas minhas.

Você quem criou o riff principal de “Beat it” do Thriller?

Esse foi o Michael. Ele cantou o riff para mim, mas eu criei (nesse momento ele canta o riff da ponte). Todas as coisas de “Human Nature” são coisas minhas. Para canções como as de “I Keep Forgettin’ de Michael McDonald, todas aquelas partes rítmicas abafadas, foram todas feitas em um único take.

(…)

Você possui uma longa e interessante carreira e tocou com algumas das melhores pessoas no mundo.

Eu realmente fui abençoado, sorte… Eu não sei como isso aconteceu. Eu estava falando com Steve Porcaro, nós chegamos numa hora que não havia absolutamente nenhuma dúvida em nossas cabeças de que nós iríamos conseguir fazer acontecer. Não havia “não” em nosso caminho. Se havia uma parede nós a derrubávamos.  Não iríamos tomar não como resposta. “Não” não é uma resposta aceitável e eu ainda acredito nisso.

Eu penso que me perdi um pouco, mas eu estou de volta e realmente acredito que redescobri meu instrumento, encontrei minha paixão, minha musa, meu coração. Sabe, em uma carreira de 35 anos não é difícil perder seu caminho às vezes, e eu me desculpo por isso. Mas eu consegui seguir em frente. Agora eu estou flutuando sobre a terra, me sentindo melhor que nunca.