Black Sabbath: a invenção do Heavy Metal

Birmingham, cidade industrial da Inglaterra, final dos Anos 1960. Quatro jovens pobres resolvem montar uma banda de rock e tocar nos bares da cidade. Em suas cabeças havia o sonho de que a música pudesse dar-lhes um futuro melhor; longe do mesmo destino da maioria dos seus moradores, que acabavam trabalhando nas fábricas da cidade.

O grupo era formado por Tony Iommi, Terry “Geezer Butler, Bill Ward e John “Ozzy” Osbourne, e chamava-se Earth. Porém, logo tiveram que mudar de nome, uma vez que descobriram que já exista uma outra banda com esse mesmo nome.

Ozzy Osbourne conta em sua biografia (Eu Sou Ozzy, editora Benvirá), que ele e Geezer Butler foram assistir a um filme chamado “Black Sabbath” (aqui no Brasil esse filme ganhou o nome de “As Três Máscaras do Terror”), estrelado por Boris Karloff. Então, eles perceberam naquele dia que as pessoas se interessam e até estão dispostas a pagar para se assustarem. Logo em seguida, Geezer Butler teve um sonho onde ele via um demônio no pé de sua cama, e aquilo tinha lhe trazido muito medo. Então, ele escreve os primeiros versos de uma canção que veio a se chamar “Black Sabbath”.

O grupo que já tocava “pesado”, para os padrões da época, começou a compor músicas mais realistas, falando de guerras, mortes e recheadas de ocultismo, que estava muito em voga naquela época. Assim, por volta de 1969, eles resolvem assumir o nome de Black Sabbath. E, em janeiro de 1970, finalmente eles conseguem um contrato para gravar seu primeiro disco. Segundo Ozzy, o nome Black Sabbath fez muita diferença, uma vez que tudo que era relacionado com o “lado escuro” vendia.

Sobre as gravações do álbum, Tony Iommi disse: “Entramos no estúdio e fizemos tudo num dia só: tocamos nosso repertório daquele tempo e pronto. Nunca fizemos uma segunda versão da maior parte do material.”.

Com um prazo tão apertado, o resultado final foi que o álbum ficou com uma crueza poucas vezes ouvida no rock and roll. Tony Iommi, que havia sofrido um acidente e perdido as duas pontas dos dedos da mão direita, resolveu gravar as guitarras do álbum meio tom abaixo (mi bemol), o que acentuou ainda mais o som opressivo do disco.

Enquanto o grupo continuava suas apresentações em bares e casas noturnas, em 13 de fevereiro de 1970, uma sexta-feira, é lançado o disco “Black Sabbath”.

A começar pela capa, onde uma mulher com ares de bruxa é fotografada numa paisagem bucólica, depois, as sete canções que compõem o álbum não deixavam dúvidas de que aquele disco não era simplesmente mais um disco de rock; era, na verdade, um divisor de águas, considerado hoje como a Pedra Fundamental do Heavy Metal.

Logo, a canção “Black Sabbath” começou a tocar no programa Radio 1, da BBC, o que ajudou muito a banda a ficar mais conhecida.

Após o disco ser lançado, a recepção da crítica não foi das melhores, nem na Inglaterra e tão pouco nos Estados Unidos. Lester Bangs, famoso crítico da revista Rolling Stone, disse que o álbum era pretensioso, mal gravado, e que o Black Sabbath era como o Cream, banda de Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker, só que muito pior. Ao longo de todo sua carreira, o grupo iria agradar sempre mais ao público do que aos críticos.

A importância do disco só foi sendo percebida com o passar do tempo e com a quantidade de bandas que foram surgindo tendo como referência o Black Sabbath. Além disso, o som da banda não havia nascido de um desdobramento de um outro gênero, como por exemplo, o Rock Progressivo, que nasce a partir do som psicodélico. Não, o que fora criado por Tony Iommi, Ozzy Osbourne, Geezer Butler e Bill Ward, deve-se à ousadia e a criatividade deles mesmo, que souberam catalisar em suas músicas toda uma insatisfação com a vida e o mundo do seu tempo. “Nossa música é uma reação a toda essa babaquice de paz, amor e felicidade. Os hippies ficam tentando te convencer de que o mundo é uma maravilha, mas é só olhar ao redor para ver em que merda nós estamos“, disse Ozzy.

 

Faixas Comentadas

  • Black Sabbath” – A canção abre o disco com seu clima sombrio, trovoadas e as notas sinistras do seu refrão, e traz na letra uma referência ao sonho de Geezer Butler, onde uma pessoa é perseguida por um demônio. Muitos críticos e principalmente religiosos acusam a banda de fazer apologia ao Diabo. O riff foi construído com uma progressão harmônica, incluindo uma quinta diminuta. Esse intervalo era chamado na Idade Média de “Diabolous in Musica”, pois devido ao seu alto grau de dissonância  sugeria conotações satânicas (falta de harmonia, feiura) em contraposição com combinações sonoras consonates (harmonia, beleza) para os padrões estéticos musicais da época. Muitas bandas de Heavy Metal tem se utilizado deste intervalo em suas canções. Segundo Geezer Butler, essa canção teve o riff inspirado em “Mars, The Bringer of War”, o primeiro movimento da música “Suíte The Planets”, do compositor inglês Gustav Holst;
  • N.I.B” – Traz uma letra que sugere a entrega ao senhor das trevas, Lúcifer. Apesar de todos acreditarem que a sigla signifique: Nativ On Black, segundo a banda, ela é na verdade uma referência ao apelido de Bill Ward por causa de sua barba, que era parecida com uma ponta de caneta (pen nib),em inglês. Essa música apresenta um efeito de Wah-wah no baixo, em sua introdução, uma inovação para a época;
  • Evil Woman” – A música que é uma cover de uma banda americana de blues rock chamada Crow, foi lançada primeiramente como single em dezembro de 1969, depois foi incorporada ao disco;
  • Behind The Walls of Sleep” – Essa música fora inspirada num livro do escritor H.P. Lovecraft, que morreu em 1937. Os trabalhos deste autor são profundamente pessimistas e cínicos, muitas vezes contrários aos valores do Iluminismo e do Cristianismo. Sua obra é exclusivamente sobre o horror, tendo a finalidade de perturbar o leitor. Diversas bandas de Heavy Metal se inspiraram em suas histórias;
  • Warning” – Esta música foi inspirada numa canção de Aynsley Dunbar, chamada “Retalation”. Em dado momento, somente a guitarra de Iommi é ouvida, os outros instrumentos silenciam. Então, ele dá mostras de sua incrível capacidade de criar riffs, pois, o que ele toca poderia ter sido transformado em um monte de outras músicas;
  • Wicked World” – Esta música ficou de fora do disco lançado na Inglaterra e aqui no Brasil. Nos EUA, o álbum foi lançado com ela. Posteriormente, ela foi incluída também quando lançado em CD.

 

 

Vitor R. E. Aleixo, publicitário, 47 anos, ex-produtor do programa “Arquivo Pop”, da Rádio Cultura FM de Amparo, 102,9MHz; atualmente, produz o programa “Wooly Bully”, na Rádio Rock Clube, no site: www.radiorockclube.net.

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