Exile On Main Street: o disco dos Rolling Stones feito no exílio do rock

Em 1972, os Rolling Stones se exilaram no sul da França para gravar um novo disco. Seria o 10º álbum na carreira da banda, e aquele que para alguns críticos capturou o melhor momento do grupo.

Os Rolling Stones haviam conquistado o mundo nos Anos 1960. Ao lado dos Beatles, se tornaram ícones do Rock And Roll, influenciando inúmeros jovens ao redor do mundo.

No auge da fama, após lançarem o aclamado álbum “Beggar´s Banquet”, em 1968, o grupo que já tinha uma má reputação devido aos escândalos envolvendo drogas, se viu mais uma vez nas páginas dos tabloides londrinos devido à morte de Brian Jones, que fora encontrado morto boiando na piscina de sua casa, naquele mesmo ano. Depois, devido ao malfadado concerto de Altamont, onde um Hell Angel matou um rapaz negro, isso em 1969, o grupo se viu de novo nas páginas dos jornais e alvo de críticas.

Se não bastasse os problemas acima, o grupo descobre que seu agente na época, Allen Klein, não havia pago os impostos, o que resultou numa dívida de mais de 100 mil libras ao governo britânico.

O final da década de 60 e o começo da década de 70 não poderiam ter sido tão ruins para os Rolling Stones.

Estes problemas não alterava em nada o ritmo do grupo que continuava gravando álbuns e excursionando. Até que em 1972, eles decidem deixar a Inglaterra para se instalarem numa casa que Keith Richards tinha alugado no sul da França, em Ville Franche-Sur-Mer, vila Nellcote. A saída foi a solução encontrada para poder repensar o futuro da banda.

Porém, a mudança para o Sul da França e as gravações de um novo disco não foram nada fáceis. Primeiro, porque apesar da massiva cobertura da imprensa, a saída da Inglaterra deixou mais uma má impressão sobre a banda; que agora recebiam a pecha de fugitivos; depois, causou estranheza e desconfiança nos fãs, que chegaram a acreditar que a banda pudesse terminar. E naquela época, os Rolling Stones era o que havia sobrado do sonho da década de 60, uma vez que outros ídolos como os Beatles não existiam mais. E também Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison havia morrido, deixando a juventude órfã, por assim dizer.

Ao se instalarem em Nellcote, a banda percebeu que a rotina na casa de Keith Richards não era nada convencional. A começar pelo local, uma velha mansão construída por um almirante britânico que chegou a ser utilizada durante a guerra pelos nazistas. E também pelo fato da casa estar sempre cheia de gente, num clima de badalação constante.

As gravações então se tornaram um capítulo à parte nesta história. Auxiliados pela equipe móvel da Rolling Stone, o grupo improvisou em uma parte da casa uma espécie de estúdio que, segundo relatos dos próprios músicos, dificultava muito a comunicação entre eles, devido ao tamanho do local.

Assim, os dias foram transcorrendo num verdadeiro caos, pois além da banda que se instalara no local, muitas outras pessoas acabaram aparecendo e ficando por lá também. E, inevitavelmente, interferiam no andamento do processo de gravação, que, apesar de tudo isso, tinha um tipo de metodologia específica, e só iniciava depois que Keith Richards estava presente, isso lá pelo meio da tarde, e se estendia até a madrugada.

Os Stones junto da equipe técnica e familiares viviam num clima de comunidade hippie. Nestas condições, não faltavam drogas e nem bebidas que foram utilizadas como combustíveis nestas gravações.

Quando enfim todos no grupo estavam saturados de tudo aquilo e já não suportavam mais aquela rotina, ao cabo de nove meses, eles perceberam que haviam produzido muito material, o suficiente para um álbum triplo.

O álbum acabou sendo finalizado em Los Angeles, nos Estados Unidos, nos famosos Olympic Studios, onde se transformou em um disco duplo, contendo 18 músicas. O primeiro e único disco duplo (fora os ao vivo) que os Rolling Stones gravaram ao longo de mais de 50 anos de carreira.

“Exile On Main Street” foi lançado em 12 de maio de 1972. O disco não agradou de imediato os fãs, os críticos e a própria banda. Porém, com o passar do tempo, o álbum foi sendo reverenciado e hoje é considerado o melhor momento dos Rolling Stones, figurando em qualquer lista de melhores discos de rock de todos os tempos.

Ao mergulharem no rock and roll, no Blues, country, gospel e soul, os Stones produziram um disco único; distante milhas e milhas do que estava sendo produzido naquele período da música pop. Por isso, “Exile” é considerado um álbum fora de contexto, singular. Mas, de um significado marcante, o momento em que o rock fora exilado, no sul da França, mais negro do que ele nunca mais voltou a ser novamente.

 

Faixas Comentadas:

Antes de falar das músicas, não posso esquecer de falar sobre a capa do disco, produzida a partir de fotos de Robert Frank, um grande fotógrafo americano, que se encaixou perfeitamente ao que os Stones buscavam. Suas imagens bizarras, de pessoas esquisitas e do cotidiano da cidade, mescladas com fotos da banda, fez história e inspirou outras capas de discos de rock nas décadas seguintes.

José Emílio Rondeau, jornalista que fez parte da equipe da revista Bizz na década de 80, numa resenha para a seção “Discografia Básica”, daquela revista, escreveu: “A maioria das músicas era uma sucessão de polaroides rock – imagens de decadência, dor, perigo, desilusão. E de sobrevivência”.

Com esta introdução deste grande jornalista, eu faço justiça a outro texto, capturado no site Whiplash.net, que descreve as músicas deste que é o disco mais importante dos Rolling Stones. A seguir:

“Como bem defende boa parte dos fãs e especialistas, Exile On Main Street é “O” grande disco dos ROLLING STONES. Gravado na casa de Keith Richards na França e lançado há exatos 38 anos, o disco abrange todos os estilos explorados dentro do rock and roll até então e foi descrito por FRANK ZAPPA como “um grande sopão de rock”, com todos os ingredientes necessários. Apesar de ecléticas, as 18 faixas formam um álbum coeso, talvez o mais bem-acabado do catálogo dos Stones.

“Rocks Off” abre o disco em grande estilo e já mostra que, pelo menos na parte musical, a química da banda nunca esteve tão forte. A canção foi supostamente gravada em apenas dois takes. A seguir vem “Rip This Joint”, um arrasa-quarteirão com vocais que Mick Jagger nunca mais conseguiu repetir. Duas músicas inspiradas nos cassinos de Monte Carlo fecham o Lado A: “Casino Boogie” surgiu de uma jam entre Keith Richards e Bobby Keys, e “Tumblin’ Dice” se tornou o grande sucesso que prenunciou a essência da banda daquele momento em diante: puro rock de arena.

O Lado B privilegia a música country, indicando que boa parte dessas canções teve o dedo de GRAM PARSONS. A acústica “Sweet Virginia” tem vocais nitidamente inspirados nos trejeitos do músico norteamericano e traz um belo trabalho de Mick Jagger na gaita. “Torn And Frayed” foi baseada em fragmentos que Keith e Gram estavam compondo juntos.

Abrindo o Lado C, “Happy” é cantada por Keith Richards e foi composta rapidamente na varanda de sua mansão em Nellcôte quando o guitarrista soube que a esposa estava grávida novamente. “Ventilator Blues” é um dos raros casos em que Jagger e Richards cederam direitos autorais a outro integrante da banda. A canção de fato nasceu de um riff criado por Mick Taylor e teve a letra inspirada num ventilador que aliviava o calor de uma noite quente. Bobby Keys colaborou com a batida rítmica da música, batendo palmas fora do tempo para que Charlie Watts executasse os compassos corretamente.

O Lado D encerra o álbum com o rock acelerado de “All Down the Line” e mais uma cover de ROBERT JOHNSON (os Stones já haviam gravado “Love in Vain” no disco Let It Bleed). Em seguida inovam mais uma vez com uma típica canção gospel (“Shine a Light”), para fechar com a nervosa “Soul Survivor”, de Keith Richards. O guitarrista, figura central durante as gravações do álbum, foi o principal responsável pela riqueza musical na composição e produção de Exile On Main St..

Apesar de lançado originalmente em vinil duplo, hoje se nota que Exile On Main St. poderia muito bem ter sido um disco triplo. Algumas das faixas inéditas incluídas no relançamento são clássicos instantâneos e fica difícil entender como pode ter “faltado espaço” para elas. Seja como for, agora não importa mais. Sorte de quem viveu até hoje para ver este tesouro ser desenterrado.

Os primeiros acordes de “Pass the Wine (Sophia Loren)” sugerem uma produção relaxada, típica de uma demo. No entanto, a música ganha pegada e estilo à medida que o arranjo cresce. O refrão é uma ode à tríade sexo, drogas e rock n’ roll: “I’m glad to be alive and kicking / I’m glad to hear my heart’s still ticking / So pass me the wine, baby, and let’s make some love” (“É bom saber que estou vivo e curtindo / É bom saber que meu coração ainda está batendo / Então me passa o vinho, baby, e vamos fazer amor”).

“Plundered My Soul” não é somente uma boa canção, mas uma pérola pop. Daquelas que te conquistam logo na primeira audição, te fazem cair da cadeira e espernear loucamente pelo fato de eles terem demorado 38 anos para mostrá-la ao público. Gravada em 1971 para entrar em Exile On Main St., não se sabe por que uma música tão cativante ficou fora do álbum. Além do primoroso arranjo das guitarras, destaca-se o impressionante poder vocal de Mick Jagger no seu auge como cantor. A canção ainda foi abrilhantada pelas impecáveis contribuições de Lisa Fisher e Cindy Mizelle, atuais backing vocals dos STONES.

Na sequência, “I’m Not Signifying” é um blues cadenciado e grudento, encrementado com belos solos de guitarra, sax e gaita. “Following The River” é uma daquelas baladonas em que o piano de Nicky Hopkins faz a cama para a voz de Mick Jagger deitar e rolar. “Dancing In The Light” é construída em cima da marca registrada dos ROLLING STONES: a combinação do vocal rasgado de Mick Jagger com os riffs ganchudos de Keith Richards. A primeira metade do CD bônus traz uma sequência arrebatadora de canções, que se destacariam em qualquer álbum da discografia dos STONES.

So Divine (Alladin Story)” é ao mesmo tempo exótica e chicletuda, talvez tenha sido deixada de lado porque o riff introdutório lembra vagamente o começo de “Paint it, Black”, de 1966. Em seguida aparecem versões alternativas de “Loving Cup” e “Soul Survivor”, esta cantada por Keith Richards. Ambas revelam a influência de GRAM PARSONS no som da banda, especialmente no jeito de cantar. A sensacional “Good Time Woman” tem um bom motivo para ter sido descartada: é uma clara versão embrionária de “Tumblin’ Dice”. A rápida jam instrumental “Title 5” fecha o CD bônus em grande estilo, com um rock vigoroso e dançante.”

Vitor R. E. Aleixo, publicitário, 47 anos, ex-produtor do programa “Arquivo Pop”, da Rádio Cultura FM de Amparo, 102,9MHz; atualmente, produz o programa “Wooly Bully”, na Rádio Rock Clube, no site: www.radiorockclube.net.

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