Back in Black, do AC/DC: velório regado à Uisque e Rock And Roll

No final dos Anos 1970, o AC/DC era uma das maiores atrações do rock. Até mesmo os punks adoravam a banda, que fazia um rock vigoroso, com ótimas letras e um som cru que lembrava os primórdios do gênero.

Porém, após o grande sucesso de “Highway To Hell”, lançado em 1979, e de sua turnê, no início dos Anos 80, a tragédia se abateu sobre a banda. Bon Scott, vocalista e letrista, morre decorrente do excesso de bebida.

O que poderia ter sido o fim da banda, na verdade, se tornou o recomeço, ou, o nascimento de uma nova fase na carreira do grupo.

Logo após a morte de Bon Scott, o grupo resolveu encontrar outro vocalista e seguir em frente. Foram feitos alguns teste, com alguns cantores, e o escolhido acabou sendo Brian Johnson, que era cantor de uma banda escocesa chamada Geordie.

Brian Johnson era perfeito para o AC/DC: tinha uma voz forte, uma postura boa de palco e também era um bom letrista

Johnson não era tão desconhecido assim do pessoal do AC/DC, nem tão pouco do falecido Bon Scott, que o conheceu quando Scott era cantor da banda Fraternity, um grupo progressivo australiano. Diz a lenda que os dois se encontraram no início dos Anos 70, quando o Fraternity estava excursionando pela Inglaterra e o Geordie era a banda de abertura dos shows.

Reformulado, o AC/DC e seu produtor Robert John “Mutt” Lange foram para as Bahamas para gravar o disco que foi batizado com o nome de uma das canções, “Back In Black”. As gravações transcorreram sem problemas e Johnson se encaixou perfeitamente na banda, e logo esse entrosamento resultaria em mais sucesso.

Lançado em 25 de julho de 1980, “Back In Black” foi direto para as paradas de sucesso, sendo quarto lugar na Billboard americana e primeiro na Inglaterra. Pouco tempo depois, já era um dos discos mais vendidos de todos os tempos; e hoje, é o segundo mais vendido (42 milhões), só perdendo para “Thriller”, de Michael Jackson.

Muito do sucesso do disco se deve às letras de Brian Johnson. Porém, o AC/DC como banda estava em ótima forma. Os riffs criados por Angus Young são considerados os melhores que ele produziu em todos os tempos. A crueza do álbum ao mesmo tempo impressionava e encantava as pessoas: de tão simples e ao mesmo tempo complexas que eram as canções, entrecortadas pelas guitarras afinadíssimas dos irmãos Young (Angus e Malcolm), seguidas pela cozinha sólida de Phill Rudd e Cliff Williams, que ditavam os compassos e os tempos, e tudo isso sobre a voz rasgada e vigorosa de Brian Johnson. O resultado: um disco que você ouve do início ao fim numa tacada só… chegando no final quase sem fôlego.

Depois de “Back In Black”, o AC/DC gravaria outros discos muito bons naquele início dos Anos 80, como: “For Those About To Rock… We Salute You (1982), “Flick Of The Swicht” (1983) e “Fly on The Wall” (1985). E recentemente, em 2008, o grupo retomaria às fórmulas consagradas nestes álbuns e lançaria “Black Ice”, com o mesmo produtor Robert John “Mutt” Lange. Como naqueles tempos, o resultado agradou demais aos fãs, e este disco já é considerado um clássico do grupo.

Na vida assim como na natureza a renovação se faz necessária. Se por um lado o AC/DC perdeu a figura carismática de Bon Scott, a banda se reergueu e ficou mais forte com Brian Johnson. E “Back In Black” é a resposta de que toda tristeza pode e deve ser superada para que possamos seguir em frente porque, enquanto não ouvirmos os sinos do destino, temos muita coisa pra fazer ainda por aqui… Se for ao som de um disco como “Back In Black”, do AC/DC, um dos maiores clássicos do rock de todos os tempos, fica melhor ainda.

 

 

Faixas Comentadas

 

“Hell´s Bells” – O disco abre com os sinos de um funeral simbólico, o suposto enterro de Bon Scott ou sua chegada ao inferno? Nada disso, uma festa regada a hedonismo, morte e muito rock and roll, com um dos riffs mais infernais de Angus Young. Nos shows da turnê de promoção do disco, Brian Johnson escalava uma corda e batia os sinos gigantes, para o delírio dos fãs;

 

Shoot The Thrill” – A letra é uma declaração às mulheres pedindo para elas atirarem para se excitarem. Totalmente sexual, bem ao estilo AC/DC… “Mulheres, eu peguei minha arma no ponto, e vou atirar”… Nada mais rock and roll;

 

What Do You Do For Money Honey” – Essa música questiona uma prostituta a se perguntar, o que você não faz pelo dinheiro querida? São só negócios, como sempre;

 

Given The Dog A Bone” – Assim como boa parte das músicas do AC/DC, o sexo é o tema principal, e nessa música ele nunca foi tão explícito, especialmente pela frase: “ela está usando a cabeça novamente”, que você pode interpretar de várias formas, porém, em se tratando de AC/DC, eu interpreto da pior maneira possível. O mais interessante é que o riff hipnótico não me deixa dúvida de que se trata de uma …. (isso cabe a você imaginar, sabichão);

 

Let Me Put My Love Into You” – Essa canção tirou o comitê PMRC (Centro de Recursos Musicais de Pais) do sério. Esse comitê listou em 1985, 15 canções que ficaram famosas nessa lista que ficou conhecida como a lista das “quinze asquerosas”, que incluiam, além desta canção do AC/DC, músicas como “Darling Nikki”, do Prince, em primeiro lugar, “Sugar Wall”, de Sheena Easton, em segundo, e “Eat Me Alive”, do Judas Priest, em terceiro. Odiado pelos artistas, esse comitê conservador zelava pelos bons costumes e tentava (inutilmente) preservar os jovens de coisas que eles consideravam ofensivas à sua formação, como o rock and roll;

 

Back In Black” – A música que dá título ao disco não poderia ser mais memorável. Com um riff matador, ao melhor estilo Angus Young, essa canção fala de dar a volta por cima, de estar de novo no jogo, por assim dizer. Eu me lembro de que em 1981, era um sucesso fenomenal, tocava direto nas rádios e deixava a molecada doida…Também não é por menos. Com certeza o maior sucesso do AC/DC neste álbum, que já recebeu vários covers, sendo o mais bacana da banda The Hives;

 

You Shook Me All Night Long” – Mais uma letra de cunho sexual, e uma das mais bacanas do disco. Com o tempo, essa música acabou virando vinheta de vários eventos esportivos nos Estados Unidos;

 

Have A Drink On Me” – Em tempos de “Lei Seca”, e do “politicamente correto”, essa canção do AC/DC não deve ser consumida com moderação. O tema é uma pura homenagem ao ex-vocalista Bon Scott, que gostava de se embriagar, e até morreu após uma noite de muita birita. De qualquer forma, só ouça essa canção acompanhado de menores… de 80 anos;

 

Shake A Leg” – O que dizer se uma canção com estas frases: “Revistas, sonhos pornográficos / Mulheres vadias em máquinas para mim / Grandes lambidas, beliscões e chupadas são minha química”… E isso tudo com muita guitarra, um riff infernal, baixão sincopado, uma batera mais precisa que um relógio suíço e um vozeirão gritando essas coisas… Só posso dizer que é puro rock and roll; de verdade, direto na veia;

 

Rock And Roll Ain´t Noise Pollution” – E se você sobreviveu a esse “velório”, com muito sexo, bebida e barulho (no bom sentido), poderá ouvir essa reclamação no final do disco, onde a banda protesta contra aqueles (caretas, eu diria) que acham que rock and roll não é música de verdade, que rock é só barulho (no mau sentido)… Para estes, o AC/DC gravou essa canção, não para dizer que rock é coisa séria, não. Pois, com o AC/DC rock pode ser tudo, menos sério.. Por isso mesmo, maravilhoso! Sempre.

 

 

Em tempo: apesar de ser repleto de temas sexuais e falar abertamente sobre bebidas, eu não acredito que o disco seja uma apologia a estas coisas. Porém, quero deixar registrado que cada pessoa é livre para escolher o que é bom para si, como fumar, beber, se drogar, etc. E quero lembrar que tudo isso interfere na sua vida, seja você roqueiro ou não. Por isso, longe de aconselhar quem quer que seja, tome cuidado! Porque o bacana desta nossa viagem por aqui, desta passagem que é única, é poder aproveitar as coisas sem que elas prejudiquem nossa saúde, nossa formação e nossa evolução como seres humanos. Me desculpem se esse discurso é um tanto careta, mas, se faz necessário. Porque, o rock sempre esteve envolto nesta atmosfera de criminalidade, de marginalidade, porém, as guerras, a intolerância e o radicalismo fazem mais vítimas que qualquer sujeito empunhando uma guitarra ou cantando numa banda de rock. As pessoas “normais”, conservadoras em sua maioria, sempre utilizam o rock como instrumento do mal. Mas o verdadeiro mal está em usá-lo como bode expiatório de uma sociedade careta que tenta fazer com que as pessoas sejam presas em padrões de comportamento que interessam a elas, que, assim, podem ser facilmente dominadas e manipuladas. Por isso, qualquer banda de rock ou qualquer roqueiro deve sim incomodar estas pessoas. Porque, hoje mais do que nunca, ouvir rock é lutar contra toda a hipocrisia que vigora não só na música, mas nas ruas, na TV, na política, religião, etc… em tudo que nos cerca.

 

 

Vitor R. E. Aleixo, publicitário, 48 anos, ex-produtor do programa “Arquivo Pop”, da Rádio Cultura FM de Amparo, 102,9MHz; atualmente, produz o programa “Wooly Bully”, na Rádio Rock Clube, no site: www.radiorockclube.net.

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