Entrevista com Steve Lukather

Olá amigos, desta vez vou postar partes de uma entrevista com um guitarrista que figura entre os grandes guitarristas da história pelo tamanho e importância de seu trabalho, mas que não é tão largamente conhecido do público brasileiro, Steve Lukather. Isso se deve em parte, creio eu, ao fato que enorme parte do trabalho de Steve ser em estúdio, tocando em gravações de outros artistas, situação na qual seu nome acaba não aparecendo ao público. Uma coisa é fato, você pode nunca ter ouvido falar dele (até agora), mas é impossível que nunca o tenha ouvido tocar, como você ficará sabendo nesta entrevista.

Além de apresentá-lo aos que ainda não o conhecem, achei interessante compartilhar esta entrevista com vocês (originalmente publicado no site americano da BOSS) por ser uma oportunidade de saber mais como pensa, quais são os valores de um músico de sucesso, não sucesso no sentido efêmero de “estrela” que nem é tanto o caso de Steve, mas sucesso como profissional que alcançou o topo pela qualidade e seriedade de seu trabalho, como vocês poderão conferir, através de muita paixão, estudo, dedicação e respeito pela música e pelos grandes artistas com quem trabalhou e por quem foi influenciado. Grande atitude. Grande cara (além de pai pra lá de coruja!).

Aqui vai o link da entrevista original.

http://www.bossus.com/boss_users_group/article.php?ArticleId=1402

E aqui vão dois links pra quem quiser conferir um pouco do homem em ação.

http://www.youtube.com/watch?v=HUHOa6binrs

http://www.youtube.com/watch?v=QGI5v1bi9VY&feature=related

Boa leitura!

 

Steve Lukather

By Paul Hanson

Tradução de Nando Moraes

 

Guitarrista, cantor, produtor e compositor Steve Lukather possui um dos mais impressionantes currículos entre todos os guitarristas da era moderna das gravações. Com décadas sendo um altamente procurado guitarrista de estúdio pelos maiores artistas da indústria musical, ele provavelmente figura em mais hits que qualquer outro guitarrista na história. Além disso, Steve fundou junto com outros virtuoses e também colegas de faculdade nos anos 1970 a banda Toto, vencedora de vários GRAMMY®, banda que continua na ativa ainda hoje.

O número de gravação em que Steve tocou é simplesmente estarrecedor, gravações para grandes nomes como Michael Jackson, Cher, Michael McDonald e Paul McCartney, apenas para citar alguns. Em www.SteveLukather.com, você encontrará uma discografia parcial que mesmo escrita em letras miúdas parece não terminar nunca.

Eu estiver com Steve por telefone numa manhã em Los Angeles depois de sua corrida matinal diária e sua sessão de exercícios pela manhã, e nós conversamos sobre sua longa e agitada carreira com a guitarra. Para ouvir nossa conversa completa além de clips de músicas de Steve acesse: www.BossUS.com/Podcasts.

A seguir confira um trecho de nossa conversa.

Eu soube que quando você era um garoto, sua mãe ganhou um piano em um programa de TV, The Hollywood Squares. É verdade?

Sim. Eu ainda tenho aquele piano. Está em minha garagem. É um pequeno piano espineta. Eu aprendi a tocar sozinho nele. Todo meu primeiro aprendizado de orquestração para piano, harmonia, teoria, composição e basicamente como tocar piano foi nele, então eu o mantive como uma pequena peça de um museu pessoal, algo assim. Eu basicamente quis guardá-lo, pois foi onde tudo começou, e talvez eu o dê para minhas crianças. Eu tenho duas gerações de filhos, de 26 anos de idade a 6 meses de idade.

Eu soube que seu filho é um guitarrista.

Meu filho Trevor tem 24 anos, e tem uma banda matadora neste momento. Eles estão indo para Londres começar a pré-produção de seu material com o filho de Jack Blade, Colin, e o neto de Elvis Presley, Ben. Eles têm umas canções ótimas e são caras jovens e bonitos. Meu filho toca muito bem, ele realmente está detonando. Ele é um grande compositor e estou realmente orgulhoso dele. Nós trabalhamos juntos (ele tocou em meu mais recente álbum). Ele vai sair tocar junto com conosco no Toto este verão. Ele é muito divertido.

Você e eu temos praticamente a mesma idade e somos grandes fãs de Beatles.

Foi onde tudo começou. Quem iria saber quando eu era um garoto ouvindo Meet the Beatles e apenas começando a tocar guitarra que eu viria a, de fato trabalhar com Paul McCartney e tocar com George Harrison e ser amigo deles e coisas assim? Era surreal.

São algumas de minhas memórias favoritas… Eu tenho algumas ótimas fotos e coisas que eu guardo em meu escritório, e eu piro: “Uau, eu realmente fiz isso.” (falando sobre seu trabalho com esses ex-Beatles). Ter completado este ciclo foi algo maravilhoso. Além de que eles são duas das mais amáveis, humildes, legais e normais das pessoas que conheço. Eu trabalhei com todas as grandes estrelas… ou não todas, mas muitas, se você olhar na minha discografia… Não há guarda-costas andando com eles. Se havia eles estavam escondidos, não havia capangas. Você entende?

George dirigiria até minha casa em um velho carro surrado. Alguém passando por ele diria “Aquele cara se parece com o George Harrison”. Só que era, entende? (risos). Ele apenas ia a minha casa, sem guarda-costas, tipo, “Ei, como vai cara?” Nós saíamos para jantar, apenas nós. Imagina, sentado na mesma mesa que Bob Dylan, George Harrison, Jeff Lynne, Jim Keltner, e eu sentado lá pensando, “se meus amigos pudessem me ver”. Eu sentado entre Bob Dylan e Geroge Harrison e pensando “Você ta brincando, cara”. Eu estava sentado entre dois de meus heróis.

Você tem algum álbum favorito dos Beatles?

Bem, Sgt. Pepper’s meio que mudou o mundo. Mas eu gosto de todos. O primeiro álbum dos Beatles foi o que me fisgou: Meet the Beatles. Imagina, eu tenho este CD em meu carro.

Mas eu preciso te contar uma coisa: Algumas gravações não deveriam ser fabricadas em CD. Tem algo sobre o vinil. Ele foi feito para o vinil. E quando é colocado secamente num CD, ele põe em evidência cada pequena falha. Você tem que entender, essas gravações foram feitas em 1963-64, a tecnologia da época era o vinil. A tecnologia digital leva o calor embora da gravação, eu prefiro as versões em vinil.

Mas Meet the Beatles of a chave do “liga” em mim, e provavelmente em cada músico de minha idade. Foi o botão “liga” que mudou o mundo, o tiro ouvido ao redor do mundo.

Para mim também.

A música ainda se mantém. A música ainda é grandiosa. As canções ainda são ótimas. Você sabe, nós vivemos na era da internet, e alguns garotos podem dizer “Beatles é um saco” ou “Hendrix não é um grande cara, ele é supervalorizado”. Como é que eles podem fazer idéia? Eles não compreendem que, em 1968, quando ouvimos Jimi e Beatles pela primeira vez foi como se alienígenas tivessem pousado em nosso quintal.

Você teria que ter vivido aquilo para realmente experimentar o que foi. Para pessoas de nossa idade, nós sabemos o impacto que isso foi. Foi como uma música de outro mundo que parecia tão inatingível. Foi assustador.

Quando você era jovem, você teve aulas com Jimmy Wyble.

Sim, isso.

Ele escreveu métodos que lidavam com coisas complexas. Eu imagino que você não aprendeu os licks de Jimmy Page com ele.

Jimmy Wyble me ensinou com ler música e coisas assim. Sabe, eu era um garoto de 14 anos cru. Eu vinha tocando desde os sete ou oito anos de idade, mas eu era um rockeiro. Eu tinha um ótimo ouvido e podia tocar rock e blues, e podia aprender coisas dos discos. Mas ele disse “Nós vamos te moer inteiro”.

Aquilo foi difícil pra mim, porque eu queria sair e detonar. Mas ele queria me ensinar as coisas, e eu tive que ficar muito, muito focado. E porque meu ouvido era muito bom, ele tocava algo para mim, e eu teria que ler. Mas, eu usava o meu ouvido, e ele dizia “você está trapaceando”. Então o que ele fazia era me passar uma lição, me passar uma música, eu levava pra casa e eu voltava na próxima semana e ele me passava uma nova música, diferente, mas do mesmo nível.

Então você tinha que Lê-la.

Aprender a ler música depois que você já toca é difícil, especialmente para guitarristas. É o único instrumento no qual você pode tocar a mesma nota em cinco diferentes lugares. No piano o Do central é o Do central. Na guitarra o Do central é tipo, um, dois, três, quatro diferentes lugares, cinco de você realmente esticar a coisa. Além disso, a afinação é em quartas e então uma terça. Eu quero dizer, a guitarra é o instrumento mais bagunçado do planeta, e é por isso que os guitarristas não são grandes leitores.

Eu li que você tocou em mais de 1500 albuns.

É o que me dizem. Eu diria uns 1000 de olhos fechados. Eu tenho feito isso por 35 anos, então não é como se eu tivesse feito isso do dia para a noite. Há uma discografia parcial em meu website. E tem um monte de coisas que eu fiz fora do radar, em outros países e coisas assim. Centenas de discos não estão lá.

 

Nos anos 1980, você esteve virtualmente na gravação de todos os hits.

Bem, eu toquei em muitas gravações de hits, muitos que as pessoas nem percebem. As pessoas não percebem que o Toto foi basicamente a banda de estúdio do álbum Thriller do Michael Jackson. Eu estive tocando no “álbum do ano” por três anos seguidos: The Dude (Quincy Jones), Toto IV, e Thriller. Sem contar outras 50 ou 60 indicações.

Eu ainda estou tocando guitarra, eu ainda tenho uma carreira de 35 anos. Eu estou bem agendado para o ano que vem, e tenho mais um monte de coisas surgindo. Eu estou mais saudável que nunca – eu parei de fumar e de beber e eu voltei pro sótão (no sentido de voltar pro quarto pra praticar). Eu tenho todo um novo equipamento. Eu estou construindo minha nova guitarra Luke III (modelo signature de Steve, fabricado pela marca Ernie Ball. – nota do tradutor). Eu tenho um par de Bogner Ecstasys, e tenho uma pequena pedaleira de pedaizinhos, sem racks… bem orgânico. Eu uso um cabo (não sistemas sem fio).

Eu uso um monte de coisas da BOSS. O que eu faço nos estúdios agora é carregar uma mochila, e não levo de fato um pedalboard, eu levo minha guitarra e uma mochila cheia de pedais. E BOSS representa a maior parte da mochila quando eu estou numa sessão de gravação. Eu realmente não uso muito efeito hoje em dia. Estou muito mais orgânico.

(…)

Quando você vai para uma sessão de gravação, tem partituras das músicas lá?

Nem sempre. Quero dizer, você precisa saber ler música, mas havia uns caras que faziam trilhas para cinema e TV que eram muito bons nisso, e esses caras ainda estão trabalhando. É uma mentalidade completamente diferente. Eu me enrolava nisso e era terrível. Eu passei por isso, mas não curti.

Eu fui contratado para preencher os espaços em branco. Eu pegava uma folha em branco e de repente em dois segundos eu vinha com um gancho. A maioria das partes rítmicas que você ouve nas coisas d Michael Jackson e Quincy Jones são todas coisas minhas.

Você quem criou o riff principal de “Beat it” do Thriller?

Esse foi o Michael. Ele cantou o riff para mim, mas eu criei (nesse momento ele canta o riff da ponte). Todas as coisas de “Human Nature” são coisas minhas. Para canções como as de “I Keep Forgettin’ de Michael McDonald, todas aquelas partes rítmicas abafadas, foram todas feitas em um único take.

(…)

Você possui uma longa e interessante carreira e tocou com algumas das melhores pessoas no mundo.

Eu realmente fui abençoado, sorte… Eu não sei como isso aconteceu. Eu estava falando com Steve Porcaro, nós chegamos numa hora que não havia absolutamente nenhuma dúvida em nossas cabeças de que nós iríamos conseguir fazer acontecer. Não havia “não” em nosso caminho. Se havia uma parede nós a derrubávamos.  Não iríamos tomar não como resposta. “Não” não é uma resposta aceitável e eu ainda acredito nisso.

Eu penso que me perdi um pouco, mas eu estou de volta e realmente acredito que redescobri meu instrumento, encontrei minha paixão, minha musa, meu coração. Sabe, em uma carreira de 35 anos não é difícil perder seu caminho às vezes, e eu me desculpo por isso. Mas eu consegui seguir em frente. Agora eu estou flutuando sobre a terra, me sentindo melhor que nunca.

 

A Linguagem da Improvisação

Olá amigos!

Desta vez vou postar um texto de um grande guitarrista norte americano que também é muito ativo no meio didádito, Les Wise.

Há alguns anos tomei emprestado de meu professor à época, Aquiles Faneco, um livro de improvisação chamado Bebop Licks for guitar, de autoria do referido guitarrista Les Wise, que não teve lançamento no mercado nacional. Claro que o livro é muito bom no seu conteúdo como um compendio de licks, porém o que mais me chamou a atenção foi o prefacio do livro, um excelente texto sobre a linguagem da improvisação.

Eu sempre usei com meus alunos justamente essa abordagem que Les Wise utilizou, o que diga-se não é novidade, porém nunca havida tomado a iniciativa de coloca-la no papel, e acabei nem precisando! Tratei de trazir o texto na hora e tenho desde então passado a meus alunos sempre que estamos iniciando o aprendizado de improvisação. Agora compartilho com vocês esta tradução, que com certeza os ajudará a compreender melhor os caminhos desta maravilhosa arte me especial, a improvisação musical, e mesmo a própria linguagem musical como um todo. Boa leitura!

 

A LINGUAGEM DA IMPROVISAÇÃO

Les Wise

 Improvisação musical. Vamos definir o que isto não é. Não é a habilidade dada por Deus de inventar melodias do nada. Não vem de um raio que cai, capacitando alguém a ser um monstruoso solista. Não é um dom divino que apenas uns poucos de nós possuem porque somos especiais. O quê, então, é improvisação?

É reorganização espontânea. Pense por um momento no que estas duas palavras significam – “o rearranjo de alguma coisa que já existe”. A improvisação é aprendida de forma muita parecida com a maneira com que uma linguagem é aprendida porque improvisação musical é uma linguagem. Todos nós temos a habilidade para aprender a linguagem da improvisação; é simplesmente uma questão de direcionamento apropriado.

Vamos examinar o que uma linguagem é. Quando nós falamos, nós não inventamos instantaneamente as palavras que fluem de nossa boca. Elas já existem. Igualmente, quando solamos nós usamos padrões e idéias que já existem na linguagem da música.

Em média um formando do ensino médio deve saber aproximadamente 15000 palavras. No entanto dois indivíduos podem expressar idéias completamente distintas, pensamentos e opiniões usando o mesmo conjunto de palavras. Como isso se dá? Simplesmente rearranjando estas palavras em diferentes ordens. Se nós todos trabalhamos dentro do mesmo vocabulário estrutural básico, então é a ordem em que nós reorganizamos as palavras que dá à nossa personalidade uma singularidade que nós chamamos de nossa.

Quando nós falamos, nós geralmente o fazemos intuitivamente, e parece ser um processo automático. No entanto, se nós olharmos pra trás e analisarmos o desenvolvimento do nosso vocabulário, veremos que não é. O processo de aprender a solar é muito parecido. Deixe-me apontar algumas similaridades.

O desenvolvimento da fala, até entrarmos na escola, foi por imitação. Nossos pais falavam uma palavra ou frase, e simplesmente a repetíamos. Da mesma maneira, antes mesmo de termos um professor de música ou saber qualquer coisa sobre música, nós simplesmente imitávamos sons. Nós podemos ter ouvido uma melodia da televisão ou um comercial de rádio e tentamos imitar aquela melodia em nosso instrumento.

Na primeira série nós aprendemos uma palavra. Nós não apenas aprendemos como pronunciar aquela palavra, mas como cada letra separadamente simboliza os sons que formam aquela palavra. Nós aprendemos a soletrar a palavra e como escrevê-la na lousa. Para fins futuros e mais complicados, nós tivemos que aprender o significado da palavra e como usa-la em uma frase. O paralelo traçado com nosso instrumento é bastante obvio.  Em nossas aulas de música nós começamos a aprender sobre alguns acordes, escalas e arpejos. Nós aprendemos sobre com quais notas eles são formados, como eles soam e onde eles são usados. Nosso teste, como músicos, foi tocar perante um público – nossos pais ou amigos. Nosso teste na escola foi ler para a classe uma história escrita por nós na qual usamos as novas palavras aprendidas.

Com o começo do ensino médio, mais adições aumentaram nosso entendimento de nossa língua. Tenho certeza de que todos nós devemos nos lembrar da diagramação das frases – agora tudo aquilo não parece um monte de coisas engraçadas? Todo o tipo de linhas e setas que apontavam para todas as direções nas palavras e sob as palavras e em cima das palavras. Completamente confusos nós pensamos com nós mesmos, “então isto representa o discurso intuitivo de um ser humano se comunicando com outro? Como pode algo tão elaborado e sistematizado ser parte da simples comunicação do dia-a-dia?” No entanto conforme aprendemos sobre nossa língua, a fórmula se torna mais e mais clara, e durante o processo educacional nós pegamos palavra após palavra. Uma de cada vez elas foram adicionadas – algumas de Português, algumas de Matemática, algumas de História e algumas de Ciências. Assim nosso vocabulário cresceu tremendamente e normalmente sem muito esforço.

Agora imagine o horror se em seu primeiro dia na escola, o professor começasse pegando livros enormes e dissesse: “Aqui está um livro contendo as 15000 palavras que você precisa saber até terminar o terceiro colegial.” Você iria querer ir pra casa na hora. Porém felizmente isto não aconteceu dessa maneira, ao invés disso, nós aprendemos nossa língua um dia de cada vez. Nossa comunicação verbal foi um processo natural, crescente e intuitivo.

Como foi adicionada palavra após palavra, o processo se tornou tão tranqüilo que agora nós dificilmente poderíamos nos lembrar quando e onde aprendemos uma palavra específica. Pegue a palavra “alumínio”, por exemplo. Quando você aprendeu esta palavra? Foi na terceira série? Quinta série? Há muita chance de você não se lembrar. Como você vai pela vida adquirindo novas palavras, você não se preocupa com elas, se amarra nelas, ou as pendura no seu pescoço e constrói sua vida inteira ao redor delas. Elas gentilmente se arrastam para dentro de seu vocabulário, e você começa a usá-las intuitivamente e automaticamente.

Vamos imaginar um uso não tão automático da comunicação. Suponha que você foi para a Rússia e foi subitamente abordado por um russo na rua. As cinco palavras em russo que você memorizou no vôo até lá terão que ser suficientes para que você se comunique. Agora você não acha que sua fala vai soar programada e mecânica? Ou será expressiva, intuitiva ou automática? Estas cinco palavras em russo serão usadas e abusadas, confundidas e completamente exauridas em um minuto. Isso sem mencionar o enorme esforço que você fará na tentativa de falar estas palavras em alguma ordem coerente. No entanto, se você soubesse 15000 palavras em russo, você simplesmente relaxaria e se comunicaria. Este processo de como arranjar estas palavras não mais soaria pensado, programado, mas completamente automático, ou – improvisado.

Nós construímos nosso vocabulário em nossos instrumentos praticamente da mesma forma que nós construímos nosso vocabulário em nossa língua. Nós lentamente e gradualmente adicionamos novos licks. Alguns nós lemos, alguns nos aprendemos de discos, alguns copiamos de amigos. Nós usamos o que já existe – nós copiamos e imitamos. Você pode perguntar, “Mas como eu posso ser original e ter meu próprio estilo se eu imito outros?”. Bem, deixe me perguntar pra você, “Você rejeitou as primeiras palavras de seu pai e sua mãe porque você inventou sua própria linguagem?” Claro que não. Você não vai discordar do fato de que o objeto que leva comida até sua boca se chama colher. Nossa personalidade distinta é expressa pela ordem em que arranjamos as palavras que são comuns a todos nós. Na música, nos podemos tocar algo que soa completamente novo e único. Mas na realidade foi uma combinação de idéias que nós já conhecemos. Pode ser uma seqüência de quatro notas que aprendemos três anos atrás combinada com parte de um lick que tiramos de um disco semana passada. Nós tocamos esta idéia e acreditamos que estamos diante de algo completamente novo, e de certa forma estamos. É uma reorganização daquilo que já existia.

 

Vamos olhar para outra forma de como o vocabulário se expande. Você nunca se sentou com um grupo de amigos quando alguém usa uma palavra que chama sua atenção? Você não sabe o significado exato daquela palavra, mas você sabe que já ouviu ela em algum lugar antes, e agora pela natureza da frase que seu amigo usou você compreende instantaneamente o que ela significa. Dentro deste exato momento você pode ter percebido que gostou da palavra, fez uma nota mental dela, depois a colocou completamente fora de sua mente. No dia seguinte você estava conversando com um amigo e – “zap” – a mesma palavra veio.

Desde que você esteja praticando sempre a linguagem da improvisação musical, o mesmo processo acontecerá. Você entrará no palco, sem saber o que exatamente irá tocar, e as idéias fluirão. Você se lembrará de um lick que você ouviu de um pianista semana passada e se encontrará tocando ele. Você terá aprendido desenhos, padrões e combinações de idéias suficientes para tocar este mesmo lick que estava guardado em seu subconsciente. Ou você pode pegar algumas poucas notas deste mesmo lick e combina-las com outro lick que você aprendeu de um saxofonista cinco anos atrás. As idéias musicais já existem, mas a maneira como você rearranja estas idéias expressará seu próprio estilo e personalidade – da mesma maneira que quando você fala.

 

A sua personalidade única é a ordem em que você agrupa todas estas idéias.

 

Improvisação musical é uma linguagem, da mesma maneira que inglês, espanhol, português e alemão. Tem que ser aprendida. É claro que pode e eventualmente vai soar natural e “improvisada”, mas primeiro tem que ser aprendida da mesma maneira sistematizada com que aprendemos nossa própria língua ou da mesma maneira sistematizada com que aprenderíamos qualquer nova língua – uma palavra de cada vez. Isto soa livre e fácil, mas é alcançado através de uma vida inteira. Um novo lick ou idéia de cada vez – do que ele foi feito, onde usa-lo e o que ele diz ou expressa. Para incrementar nossa habilidade de comunicação em nosso instrumento nós incrementamos nosso vocabulário. Para incrementar nosso vocabulário nós aprendemos novos licks. Nós tocamos estes licks repetidamente até que eles se tornem hábitos – até que nossos dedos os toquem independente de nossa mente consciente – até que possamos tocá-los até dormindo, com ou sem nossos instrumentos. Repetição. De onde nós vamos tirar estes licks? Copie discos, copie amigos, copie os discos de seus amigos. De transcrições, de outros instrumentos – uma nova palavra ou frase de cada vez. Então outra e mais outra. Este é o processo através do qual nós aprendemos e expandimos a linguagem da improvisação.

 

 

The Language of Improvisation

Prefácio do livro “Bebop Licks for guitar” de Les Wise.

Tradução de Nando Moraes

Saiba mais sobre a Escola Francesa de Flauta Transversal

Por Leandro Porfírio  

 

A Escola Francesa de Flauta Transversal tem um prestígio Internacional de mais de 500 anos. De lá saem as primeiras flautas das Orquestras mais importantes do mundo.
As disciplinas curriculares são submetidas a uma banca examinadora, sob performance narrativa ou prática, onde o aluno tem que obter o máximo de aproveitamento, nota máxima, isto quer, dizer Medalha de Ouro.

Após ter eliminado as matérias curriculares, onde o aproveitamento é somado através de pontos obtidos, o aluno vai para a prova de performance (desempenho) no instrumento. O Programa da Prova é anexado em um mural da Instituição e o aluno terá dois meses de preparação.

No programa constam Sonatas, Concertos, e obras solo, do período barroco ao contemporâneo. A prova final de instrumento, geralmente se passa num grande teatro, com pianista acompanhador,  é aberta ao público, que também expõe suas idéias e notas sobre a avaliação do candidato, melhor intérprete barroco, melhor intérprete contemporâneo, Medalha de Ouro, etc.

A banca examinadora é composta por 6 pessoas, músicos de reputação internacional. Esse procedimento se repete a cada ano, e no final do 3º ano, completado o ciclo, se a avaliação geral for Medalha de Ouro, o curso se dá por encerrado. Como em todas as disciplinas, o aluno somente encerrará o curso com nota máxima no instrumento. Esta será sua maior conquista, e constará no Diploma – Curso Superior de Música, Medalha de Ouro.

Em uma classe de 20 alunos do mundo inteiro, somente 20%, conseguem terminar o Curso Superior de Música com a Medalha de Ouro em Flauta Transversal.
Por ser um sistema rígido e disciplinado, surgem grandes talentos na França, com experiência vivida nos maiores palcos da Europa em performance musical.

Um fator que diferencia a formação Européia em relação à Brasileira (Universidade Americana), é que na Europa, as disciplinas são em menor número, onde o aluno terá mais tempo hábil para cursar sua habilidade especifica: Regência, Composição, Instrumento.

O Programa dos Concertos realizados somam pontos no curso e constam obras de alto grau de dificuldade. Quando formado, o aluno apresentará alto nível de conhecimento no repertório de sua formação com muitas horas vividas no palco.

Na Universidade Americana (Brasileira), existem um grande número de disciplinas e no final do curso, é exigida uma dissertação, baseada nos conhecimentos gerais da área de sua formação, a base teórica tem peso maior que a prática, muito diferente do que acontece na Europa.

A Escola Francesa de Flauta obtém uma reputação desde 1.624 iniciada no Chateau de Versailles, nesta época, estes já eram reconhecidos como os melhores flautistas do mundo. Desde Louis XIV, eles impressionavam os grandes compositores da época, pela sua virtuosidade e excelência em tocar flauta transversal.

Grandes métodos e livros foram publicados a esse respeito naquela época e se mantêm como referência até hoje.

A Cultura Francesa, sua sociedade, não só marcou época na literatura, como também, na dança, pintura, artes em geral, e música, sobretudo como instrumentistas e intérpretes.

Hoje, a grande safra de músicos franceses, se deve a estrutura estabelecida pelos seus antecedentes, que através dos séculos, se mantiveram como os melhores flautistas do mundo. Nomes como Patrick Gallois, Jean Pierre Rampal, Patrice Bocquillon, Pierre Yves Artaud, Sophie Cherrier, Allan Marion, e outros, deixaram seu nome na história da flauta.

 

Leandro Porfírio é Diplomado com a Medalha de Ouro no Curso Superior de Música da Escola Nacional de Música de Paris e no Conservatório Nacional Superior de Música de Paris, reside em Amparo desde março de 2010 e é professor de flauta transversal na Adagio Escola de Música desde 2010.

e-mail: leandro_flauta@hotmail.com

Site: www.adagioescola.com.br

 

Varie seu repertório e surpreenda-se!

estilos

varieosestilos

Todo músico tem um ponto forte referente a determinado aspecto, digamos técnico, da música. Alguns são ótimos com a parte rítmica, outros podem ter um enorme facilidade em criar harmonias enquanto outros se saem melhor ao elaborar melodias. Outros podem ter maior facilidade motora (técnica) enquanto outros precisam de mais esforço pra executar passagens mais complexas. E por ai segue.

Se considerarmos que cada gênero musical tem um aspecto predominante que o caracteriza (podemos chamar de clichê) logo cada músico encontrará mais facilidade para tocar composições do gênero em que predomina o aspecto no qual ele possui maior facilidade. Exemplo: alguém que descobre possuir facilidade com os raciocínios e habilidades envolvidas em improvisação, vai se sair bem com estilos que fazem muito uso desta técnica tais como blues, jazz/ fusion, etc. Outro exemplo seria um musico com forte em situações rítmicas, este teria facilidade em trabalhar com músicas com ênfase nos grooves como Black music norte americana ou música latina ou africana.

Além disso, todo músico é também um ouvinte de música, e como tal, possui seu estilo preferido. Isso certamente traz alguma influência para suas habilidades, ou seja, se você ouve muito samba, por exemplo, provavelmente vai ter facilidade para tocar esse estilo, uma vez que já conhece bem como deve soar um samba.

Mas não necessariamente será assim! Continuando com o exemplo do samba, apesar de sua paixão pelo ritmo e de saber muito bem como este deve soar, pode ser que você sinta alguma dificuldade com algum aspecto desse estilo, seja com a harmonia ou justamente com o balanço (swing) que é justamente um aspecto muito marcante deste gênero.

Ouvir é uma coisa, tocar é outra…

Portanto, segundo o que expliquei acima, você pode vir a descobrir que o estilo que você mais tem facilidade pra tocar não é necessariamente o estilo que você mais gosta de ouvir ou vice versa!

Claro que se você optar por ser músico profissional, os anos de estudo e prática resolverão a maioria dos problemas e seu samba vai começar a sair do jeito que deve, porém o ponto do qual quero tratar aqui é justamente esse: Cada música (gênero) contribui com algo em nossa formação e vocabulário musical por ser mais exigente em determinado aspecto ou mesmo em determinadas técnicas do instrumento!

Assim se você acha que por que já detonou tudo no seu estilo preferido já terminou o trabalho, experimente tocar algo de um gênero completamente diferente e veja o resultado. Você pode vir a se surpreender com o quanto vai “apanhar” para conseguir tocá-lo decentemente. Logo você que se achava o máximo…

Assim disse o músico e professor Mozart Mello em entrevista para a revista Cover Guitarra, em 2003 (usando como referencia a guitarra, instrumento com o qual ele trabalha): “(…) Aqueles chorus maravilhosos em Giant Steps não o credenciam a tocar o estudo nº 1 de Villa Lobos com palheta; Aquelas escalas tocadas em two-hands não o credenciam a tocar um simples blues (…). Está mais do que na hora dos músicos entenderem isso e se respeitarem mais.”

Falou e disse! Os estilos se somam! Cada qual contribuindo com algo diferente. Assim chego bem onde eu quero com este texto: Uma ótima maneira de estar sempre evoluindo em seu instrumento é simplesmente variar o repertorio! Esqueça seus preconceitos sobre fácil ou difícil, barulhento ou monótono, antigo ou de vanguarda, etc. brasileiro ou não, etc. Tudo isso só serve para nos mantermos em nossa zona de conforto e consequentemente estagnados.

Além do mais tem algo curioso que você pode vir a descobrir: Que adora tocar certas músicas que não te chamam tanto a atenção ao ouvir. Cito como exemplo eu mesmo, que adoro tocar Bossa Nova, estilo que dificilmente coloco em meu player quando quero simplesmente ouvir música. Dificilmente ouço e não me considero fã do estilo, porém quando rola algum trabalho com este tipo de música simplesmente adoro! Não costumo ouvir, mas adoro tocar.

Na época que descobri o quanto eu gostava de tocar aquela levada e aquelas harmonias eu estava no auge da “pancadaria” com meu gosto musical, ouvindo heavy, thrash e até death metal! Não foi por ouvir o que eu ouvia que deixei de curtir tocar esse “novo” estilo, tampouco por descobrir este novo som com suas maravilhosas possibilidades deixei de continuar ouvindo (e tocando!) o que eu já tocava. Deve ser sempre uma soma!

Ai vem outro ponto. Existe uma verdadeira legião de músicos que simplesmente não descobrem isso, perdendo oportunidades que nem fazem ideia de passar ótimos momentos ou mesmo ampliar suas oportunidades de trabalho pelo simples fato de se fecharem em seu desenvolvimento num único estilo: o de sua preferência. Seja por preconceito descabido ou preguiça mesmo (a tal zona de conforto)!

Naturalmente, se você atua como artista que compõe e grava suas próprias músicas você obviamente têm um determinado estilo, e isso não precisa (e creio que nem deve) mudar. Mas a dica vai pra você também! Não se espante, adquirir novo vocabulário ouvindo, estudando e tocando outras coisas vai apenas enriquecer seu trabalho e pode vir a ser um diferencial muito bem vindo, um som mais personalizado, mesmo sem deixar de estar tocando o estilo que sempre tocou. Ou seja, vale o bom senso, não estou dizendo pra você montar um repertório pra tocar ao vivo contendo Iron Maiden, Tião Carreiro, Tom Jobim, Miles Davis e Mozart tudo na sequencia. Óbvio que não! Você pode ser eclético, não seu show, ou sua banda. Isso seria falta de foco, de direcionamento e outros problemas mais.  Se seu show é de rock, que seja rock, o que digo é que na hora de COMPOR o SEU rock, você terá muita coisa à sua disposição na SUA bagagem cultural e técnica e a soma disso tudo transformada em rock poderá ser algo novo, realmente seu. E assim com os demais estilos, naturalmente.

Então fica a mensagem: Varie seu repertório e surpreenda-se com os resultados! Você descobrirá novas técnicas, ritmos, harmonias, timbres, formas, dinâmicas, linguagens e culturas além de ampliar seu gosto e abrir novas portas para trabalho. Você descobrirá o seu melhor e ainda terá a oportunidade de derrubar barreiras!

Pra mim sempre funcionou! O que acha?

Nando Moraes

Quanto tempo devo estudar?

Olá amigos, está aí uma pergunta das boas! Quantas vezes já ouvi alunos perguntarem sobre as lendárias 8h ou até 12h por dia de estudos apregoadas por diversos guitar heros em entrevistas, workshops, etc.

Ou mesmo, ao contrário, há aqueles que tocam tão bem que nos dão a impressão de serem adeptos das maratonas de estudos citadas acima, mas, no entanto, dizem não fazer lá muito esforço para tocarem tudo o que tocam.

Em meio a estes dois extremos como se posicionar? Qual a forma ideal de manter os estudos para evoluir no instrumento e nos conhecimentos musicais?

Creio que vale a pena observar se existem mitos sobre estas posturas.

A respeito de quem diz estudar (ou tocar) tantas horas por dia há quem diga que é balela. Conheço inclusive uma citação atribuída ao um dos maiores violonistas eruditos do século XX, Andrés Segóvia, que teria dito algo mais ou menos assim: “Quem diz que toca 12 horas por dia ou é mentiroso ou é louco”.

Bem, pessoalmente não creio que André Segóvia tenha dito algo assim, pois é fato conhecido que para alcançar a perfeição técnica exigida pela música erudita, e ainda no nível a que ele chegou para ser destaque mundial, são necessários muitos esforços que certamente em algum momento da vida dele se traduziram em longas jornadas de ensaios e exercícios. Ou seja, valendo-me de minha própria experiência no assunto e conhecendo de perto tantos outros exemplos posso lhes afirmar: há sim quem pratique de 6h ou mais por dia o seu instrumento. Não é mito e ponto final.

Exagero? Idiotice? Certamente não. Basta comparar com as demais atividades e percebemos que se dedicar com afinco, empregando várias horas do dia para atingir excelência no que se propôs, ou simplesmente, dedicar-se a uma atividade na qual encontra prazer e satisfação pessoal, isso está longe de ser algo criticável ou não desejável!

Vejamos: quem não conhece algum garoto (às vezes nem tão garoto assim) que passa, não raro, mais tempo que isso jogando vídeo game praticamente todos os dias? Assistindo televisão? Quantas horas por semana muitas pessoas não dedicam a chats via MSN e afins, sem ter necessidade nenhuma disso, apenas por lazer ou hábito? Isso quanto à parte recreativa de nossas vidas, e quanto à profissional? Quantas horas um adolescente dedica por dia, somadas as horas em que está no colégio ou cursinho ao tempo que está estudando e fazendo lições em casa durante os anos que precedem o famigerado vestibular? E durante a faculdade? Quantas horas o futuro profissional dispensa entre aulas, estudos, trabalhos e pesquisas ao longo do dia durante anos?

Outra referência importante: uma jornada de trabalho normal consiste de 8 (longas) horas diárias e frequentemente as pessoas excedem esse tempo.

Pois é, as 6, 8, 12 (ou até mais em alguns casos) horas dispensadas em uma única atividade não representam nenhuma novidade ou caso estranho em nosso cotidiano. Por que encanar justamente com o músico profissional ou amador? “Que maluco! Fica o dia inteiro com essa guitarra na mão! Sai dar uma volta! Que isso!”. Alguém imagina uma mãe falando isso para o filho em época de vestibular? É mais fácil ocorrer o contrário: “O que você está fazendo que não está estudando!? Já pegar o livro!”. E por ai vai…

Ser um profissional em qualquer atividade demanda anos de esforço e muitas horas de trabalho. E com música não é diferente. Simples assim. Além do mais quando se está fazendo algo pelo qual se é apaixonado, não se vê as horas passando. A atividade musical facilmente encontra estas duas coisas acontecendo simultaneamente, uma benção para nós músicos, mas que infelizmente muitas pessoas não experimentam em suas atividades.

E o caso de superinstrumentistas afirmarem não se esforçarem muito. Será verdade? Aí entra outra história que atende pelo nome de marketing pessoal. Quero dizer com isso que quando um artista se lança na mídia e vai de encontro ao público ele cria e passa a trabalhar uma imagem, um personagem que pode mesmo não ser lá muito parecido com o que, de fato, aquele músico é como pessoa no seu dia-a-dia pessoal. Portanto pode haver diferença entre o que estas pessoas dizem em entrevistas (momento no qual estão encarnando seus “personagens”) e o que verdadeiramente se passou ou se passa em relação a vários assuntos, entre eles naturalmente a sua preparação técnica, sua formação.

Vejamos uns casos. No meio erudito pega bem dizer que estuda muito, aliás, erudição sem muito estudo é algo difícil de conciliar, uma coisa leva a outra. O músico estudou muito mesmo e toda vez que perguntarem sobre sua formação é exatamente o que ele vai dizer. Neste caso, o personagem do artista vai de encontro a realidade, portanto ao há necessidade de inventar ou omitir coisas. Já no meio popular, no qual tudo se foca muito na figura do showman, as coisas podem mudar de figura a cada contexto em que está inserida a carreira do músico.

Assim, quando questionado sobre sua formação e seus esquemas de estudo tanto pode ser interessante para ele falar sobre seus longos anos de estudos e os nomes dos grandes mestres que ele teve quanto, ao contrário, alardear uma fama de autodidata ou mesmo de sujeito-que-nasceu-para-ser-estrela. A melhor opção para se apresentar ao público depende das regras do show business! Para qual faixa etária ele se dirige? Qual a imagem tradicionalmente apresentada pelos artistas consagrados do ritmo que ele toca (rock, funk, jazz, MPB, etc.)?

Para cada contexto de carreira, optar por explorar uma imagem de super estudioso ou de “nasci pronto” pode ser decisivo para cativar ainda mais a admiração de seu público. Não precisa ser necessariamente a verdade.

Sim, isso existe. Dizer que aquele trecho dificílimo da música não te deu trabalho pra executar pode ser uma enorme mentira, mas quem pode provar o contrário? E que impressiona, claro que impressiona. E postura pesa muito no meio pop.

Há uma cena didática sobre esta postura no filme “Rock Star”, de 2001, que conta a história de um simples rapaz que tem a oportunidade de substituir o vocalista original (um excelente vocalista, conhecido pela capacidade de alcançar notas muito altas) de uma banda mundialmente famosa da qual ele é fã, e da qual possui uma banda cover.  Durante uma entrevista coletiva, após conseguir o posto de cantor do grupo, ao responder a pergunta sobre como conseguia manter a voz em tão boa forma o rapaz responde naturalmente a verdade dizendo que a sua professora do coral lhe passava uns bons exercícios. Neste exato momento, o líder do grupo que estava sentado ao seu lado o interrompe “corrigindo” a resposta: “É porque ele faz muito sexo…”. Assim, aprendida a lição, o novato cantor reafirma: “É, é porque eu faço muito sexo”.

No exemplo acima, o cantor certamente tinha talento, claro, mas devia ao menos boa parte de seu desempenho a treino e estudos, porém segundo o que percebemos na cena, para aquele personagem que ele deveria passar a encarnar a partir dali, isso não era o mais interessante de se dizer. Pega melhor trabalhar uma imagem radical, rebelde e um estilo de vida agressivo, não uma imagem de “CDF”.

Sim, meus amigos, isso existe e o exemplo poderia ser totalmente o contrário mudando o estilo e o contexto. Ainda daria pra citar mais alguns exemplos da vida real mesmo, mas não vou me estender ainda mais.

Embora existam muitas pessoas talentosas que conseguem extrair melhores ou mais rápidos resultados de suas horas de estudo, ninguém verdadeiramente “detona” em seu instrumento sem passar um tempinho considerável com ele nas mãos.

O que devemos fazer então? Primeiro não da pra esperar uma “receita de bolo”, ou seja, não da para falar em um número exato de horas que é o ideal estudar/praticar por dia e passar isso para todos, pois as horas estudadas rendem de maneira muito diversa de uma pessoa para outra.

A solução então é ter como referência a suficiência do tempo de estudo em relação ao que você se propôs como objetivo (que vai depender tanto do repertório que você deseja aprender a tocar quanto do tempo que você coloca como meta conseguir tocá-lo). Estou praticando 3 horas por dia, está ok? Pode ser que sim, pode ser que não. Avalie se está sendo suficiente pra você evoluir em direção ao objetivo traçado num ritmo que lhe satisfaça. Se não estiver é melhor se programar pra aumentar a carga, se estiver com sobra, você pode até pegar mais leve, a menos que esteja curtindo. Busque naturalidade, porém não se acomode.

Apenas respeite seus limites! Não se frustre ou se sature. Para isso basta ter bom senso ao estipular seus objetivos.

Por fim, sabendo que não existem fórmulas milagrosas nem tampouco atalhos, a conclusão é que cada um analise o seu próprio caso sem se deixar levar por histórias que nem dá pra saber até que ponto condizem com a realidade. Qual tua referência, onde você pretende chegar? Sua relação com a música é amadora ou profissional? Qual sua realidade de tempo disponível em relação a suas reais obrigações do dia-a-dia? Analise tudo isso, tenha bom senso e veja o que seria adequado para você, estude a situação com seu professor e monte um programa de referência. Lembre-se que não é tanto a quantidade de horas utilizadas que vão dizer se está bom para você, a pergunta deve ser: Está suficiente? No mínimo.

Bons estudos!

Nando Moraes

 

Vai comprar sua primeira bateria??

Em regra, o iniciante não sabe nada, não conhece nada, não tem a menor referência do mercado. Apenas sente o coração batendo pedindo para sentar logo num banquinho com os tambores na frente e poder descarregar aquela vontade de acompanhar uma música, de soltar o verbo nos acordes musicais ou simplesmente batucar sem parâmetros, para além dos limites provisórios.

Atualmente são tantas as opções de marcas, configurações etc., que o iniciante fica vendidinho, sem saber que bateria comprar para atender aos seus anseios. Nada mais natural, pois é um verdadeiro oceano de oportunidades – o mercado cresceu muito nos últimos anos.

Didaticamente falando, é melhor que o principiante comece numa bateria para iniciante, pois necessariamente terá que adquirir uma boa pegada para fazer um bom som e quando tocar numa boa bateria vai fazer aquele som…

Da mesma forma, o ideal é um kit pequeno, que exigirá dele mais criatividade para reproduzir suas variações. Assim, quando ele deparar com um kit grande não terá dificuldades. Ao contrário, vai ter um universo muito maior para não cair na mesmice das viradas e levadas.

Obviamente, tudo vai depender do que você quer com a música e da sua disponibilidade financeira. O importante é você saber que a falta de dinheiro não inviabiliza o seu sonho de ser baterista. A dificuldade de se tocar num instrumento ruim ou ultrapassado é revertida em seu benefício num futuro não muito longe, pois quem aprende a tocar num instrumento assim, aprende de verdade – e toca em qualquer instrumento ou em qualquer situação.

O mercado de bateria é honesto, com raras exceções. O preço de uma batera varia de acordo com suas características. A madeira, os aros, a quantidade de tambores e ferragens, o acabamento, a forma de fabricação, a borda, enfim, tudo vai influenciar no preço final. O que é importante sublinhar é que nos dias de hoje as baterias brasileiras estão muito boas, sem necessidade de se recorrer às grandes marcas estrangeiras para se fazer um bom som. A grande vantagem da bateria nacional é que o fabricante fica aqui, e se você precisar de peça de reposição vai ter mais facilidade pra conseguir. O mesmo vale se você quiser ampliar o seu set.

Não se deixe levar pelo gosto dos outros. Se você conhece algum baterista e quer um kit igual ao dele, vai entrar numa furada. Bateria é uma coisa muito pessoal. Tudo vai depender do som que você quer levar, ou seja, do seu gosto musical e do seu estilo pessoal de tocar e ouvir a música – e gosto é gosto – não se discute. Cada um tem um ouvido…é como gravata – muito pessoal. Por isso existem baterias para iniciantes. São baterias feitas com medidas-padrão – que caem bem nos mais diversos estilos musicais atendendo a gregos e troianos. Tambores profundos caem bem num rock, mas os rasos, em geral, são mais definidos e se enquadram melhor na atmosfera do jazz, da bossa – e por aí vai. Até o ângulo da borda dos tambores influencia no som. Portanto, comece preferencialmente com medidas padronizadas.

Particularmente, se eu fosse começar a tocar bateria agora, compraria uma de nível “intermediário”, pois dependendo da batera, atende as expectativas profissionais no caso da coisa dar certo – e não precisaria trocar de kit tão cedo. Digo mais: compraria uma bateria usada, pois o preço cai bem e eu poderia adquirir um instrumento melhor, pelo mesmo custo de uma nova inferior. Bateria não é como um carro, que necessariamente envelhece com o uso. Um instrumento de qualidade antigo e bem cuidado, em tese, será melhor que o novo – pois a madeira fica curada com o tempo. Ela resseca internamente e se torna mais densa – proporcionando um sustain superior.

Por outro lado, uma bateria cuja madeira ficou exposta no tempo, ou sob umidade contínua num determinado ambiente, prejudica o casco do seu tambor. Então parceiro, muito cuidado se for comprar uma batera usada. De preferência, esteja com um baterista mais experiente de forma que ele não lhe deixe levar gato por lebre. O mercado de usadas é perigoso – existem muitos oportunistas que confundem os iniciantes. Nos classificados da web encontramos Pearl Export sendo vendidas pelo preço de MasterWorks. Entretanto, casos assim ainda são esporádicos e não chegam a inviabilizar o seu sonho de comprar uma usada “top” ou “intermediária”.

Sou fã de algumas marcas nacionais. Ora, o Brasil é rico em madeiras. Uma hora a indústria da bateria iria aprender a tirar proveito disso – e essa hora chegou. Hoje temos um leque de opções enorme e as bateras são de alto nível. Uma Odery vai se destacar em qualquer lugar do planeta. Uma RMV Concept também. Até a Pingüim voltou com tudo a fabricar suas baterias. Temos ainda a Master e a Adah – esta última com sua Classic Art que chegou no mercado imprensionando até mesmo os mais exigentes. Se considerarmos as importadas as opções também são enormes. A Pearl Export é o fusca. Agüenta o tranco – é bonita, bem acabada e tem um sonzão. Da mesma forma é a Tama Rockstar. Se você não tem muito pra investir, temos a Pearl Fórum ou a Tama Swingstar. Até a Gretsch tem as suas baterias para iniciantes ou intermediárias hoje em dia. A Mapex e a Pacific também são marcas que oferecem boas intermediárias. Enfim, não falta bateria por aí – a questão é você encontrar uma que seja o seu número.

Não se esqueça que o investimento não termina nos tambores. Você ainda vai ter que comprar pratos e estantes. Portanto, leve isso em consideração. Você terá que saber planejar muito bem essa compra, de molde que os recursos sejam suficientes para montar o kit completo. Não invista muito num lado de forma que falte do outro – a frustração na hora de tocar será enorme.

Rafael Brunetto

 

Dicas de ensaio 1

Olá amigos, hoje quero falar sobre algo fundamental para uma boa performance: Ensaio. Mais especificamente sobre como se preparar bem para um ensaio.

Percebo pelo relato de muitos alunos e também por situações que vivi em ensaios ao longo dos anos que é comum os músicos não se prepararem adequadamente para os ensaios de suas bandas e o resultado é que estes simplesmente não rendem o que deveriam render. Eu mesmo já dei os meus deslizes, e tendo aprendido amargando as conseqüências, passo as dicas pra vocês não cometerem os mesmos erros.

Ensaio é preparação, o que não quer dizer que você pode (nem muito menos que deve) chegar ao ensaio totalmente “cru”. Então essa é a primeira dica:

1: Vá para o ensaio já preparado, com suas partes tiradas e praticadas!

Organização, essa é a palavra chave. Para que os músicos possam se preparar bem para o ensaio é preciso primeiramente definir o programa para o próximo ensaio, ou seja, quais músicas serão ensaiadas. Feito isso cada músico pode se preparar adequadamente da seguinte forma: No caso das músicas novas cada músico deve tirar suas partes em casa e praticá-las, e quanto às músicas que já faziam parte do repertório basta apenas repassar e relembrar  as partes. Assim não se corre o risco de chegar no ensaio e “descobrir” que não se lembra mais daquelas passagens.

Então:

2: Não é para chegar no ensaio e um olhar pra cara do outro e se perguntar: “E ai? O que nós vamos fazer hoje?”. Se organizem e, principalmente, não mudem em cima da hora o que foi combinado.

3: Ensaio é para a prática em conjunto, para matar dúvidas e para acertar detalhes, não é pra tirar música nem ficar tentando lembrar.

O que, por exemplo, os demais músicos vão ficar fazendo enquanto o guitarrista fica ouvindo a música tentando tirar os riffs? Nada! E ai o tempo de ensaio está simplesmente indo pelo ralo.

Outra coisa que costuma ser feita de maneira errada é sempre chegar e já querer sair tocando. Se for ensaio de uma música nova é primordial antes os músicos conferirem se todos tiraram corretamente, matar dúvidas e acertar detalhes para ai sim, passar a música com todos os instrumentos. Um erro que vi bastante é a falta de paciência de alguns músicos não quererem esperar enquanto outros estão verificando suas partes, como se essa checada geral não fizesse parte do ensaio. Claro que faz! Fazer isso não tem nada a ver com estar tirando a música no ensaio, e se não for feito pode ser que uns estejam tocando convenções e pequenos detalhes um pouco diferente entre si, o que compromete bem o resultado final.

Então pra finalizar:

4 – Chegar preparado não quer dizer que absolutamente nada precisará ser verificado e comparado com o que outros músicos tiraram pra fazer eventuais correções. Ficar simplesmente tocando repetidamente as músicas sem parar pra checar detalhes pode ser apenas “repetição burra”.

Ok?!

Bons ensaios!

Nando Moraes

Saudações a todos!

É com muito entusiasmo que juntamente com o lançamento do site da Adagio inauguramos também este Blog.

O Blog da Adagio será um espaço para que professores e eventualmente outros colaboradores publiquem textos sobre tudo que possa interessar a músicos, estudantes e amantes de música e das artes em geral.

Dicas sobre assuntos como ensaios, situações ao vivo e em estúdio, estudos, equipamentos e instrumentos, discos, filmes, artistas, bandas, cena musical e por ai vai.

Acompanhe, comente, envie perguntas e sugestões!