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The Dark Side Of The Moon: Explorando o Lado Sombrio do Arco-Irís

O Pink Floyd foi criado no final dos Anos 60 por quatro jovens estudantes de arte: Syd Barrett, Roger Waters, Nick Mason e Richard Whrite. Eles faziam um som psicodélico e tocavam em bares underground em Londres naquela época.

A fama no cenário underground levou-os a gravarem seu primeiro disco em 1967, iniciando assim uma carreira musical que arrebataria fãs pelo mundo todo.

Porém, o grupo sofreu um revés naquele mesmo final dos Anos 60 que poderia ter acabado com os sonhos de continuar na estrada. Syd Barrett, líder e principal compositor da banda, teve problemas psicológicos que o levaram a ter que deixar o grupo que ele havia criado e batizado com o nome de dois blueseiros americanos: Pink Anderson e Floyd Concil.

No lugar de Barrett a banda efetivou David Gilmour, amigo e colaborador que já estava segurando a onda fazendo a segunda guitarra nas apresentações ao vivo do grupo.

Reformulado, o Pink Floyd seguiu em frente na procura de seu novo caminho. O grupo foi deixando de lado o som e as letras psicodélicas nos álbuns que se seguiram e que foram gravados entre 1968 e 1973, quando lançaram aquele que seria o álbum que alçaria o grupo ao panteão das maiores bandas de rock da história: The Dark Side Of The Moon.

O Pink Floyd era uma banda underground ainda quando lançou Dark Side em 1º de março de 1973. Apesar do reconhecimento da crítica, o grupo ainda não tinha atingido o grande público até o lançamento do álbum.

Dark Side começou a ser germinado quando o grupo se reuniu na casa de Nick Mason para discutir a criação de um novo álbum. Na ocasião, eles gravaram uma lista de coisas que os preocupavam. Tempo, dinheiro, loucura e morte eram algumas destas preocupações. Também preocupava a banda, principalmente David Gilmour, o fato das canções serem menos diretas, explorando temas que estavam longe da compreensão das pessoas comuns. Estas gravações foram combinadas com algumas ideias sonoras e algumas sobras do material apresentado para a trilha sonora do filme Zabriskie Point, do diretor Michelangelo Antonioni. Batizada primeiramente de Eclipse (A Piace For Assorted Lunatics), as músicas começaram a ser apresentadas como uma suíte ao público nos shows da banda em 1972. Depois, acabaram mudando o nome para Dark Side Of The Moon (A Piece For Assorted Lunatics). E em 17 de fevereiro de 1972, o Pink Floyd apresentou as músicas do novo álbum num concerto no Teatro Rainbow exclusivo para jornalistas. Ao final, a avaliação foi favorável por quase todos os presentes.

O álbum então foi gravado nos famosos estúdios Abbey Road, e produzido por Alan Parsons, que já havia trabalhado com a banda no álbum Atom Mother Heart, lançado em 1970. O Pink Floyd utilizou a mais moderna tecnologia disponível até aquele momento, o sistema Quadrifônico e a Gravação Multicanal, para conceber o disco que até hoje é tido como revolucionário neste sentido.

A capa do disco também era uma coisa à parte. Concebida pelo design Storm Thorgerson, traz um prisma sendo atravessado por uma luz branca que depois se transforma nas cores do arco-irís. A banda queria uma coisa simples, audaciosa e dramática. Thorgerson concebeu a capa justificando que a luz branca seria a própria luz irradiada pela banda, que passa pelo prisma, inspirada nas pirâmides do Egito, revelando toda ambição e cobiça do ser humano.

Após o lançamento, Dark Side vendeu mais de um milhão de cópias só nos Estados Unidos. Esse sucesso repentino nos EUA, principal mercado a ser conquistado por qualquer banda de rock naquela época, se deve a dois fatores: a fama que o grupo angariou devido as suas apresentações ao vivo, e pelo fato da gravadora Capitol, subsidiária da Harvest, ter lançado um single com a música “Money”. Fato esse que deixou os membros do Pink Floyd irritado, uma vez que o grupo se recusava terminantemente a lançar singles de suas músicas.

A importância de Dark Side não se limita somente aos números de discos vendidos até hoje, mais de 30 milhões no mundo todo. Ela se deve principalmente ao fato do álbum ter sido uma grande influência para muitas bandas de rock e, principalmente, para muitas pessoas ao redor do mundo.

Nas palavras de David Gilmour, Dark Side representou a conquista do mundo, o auge da banda e o começo do fim. Assim como o arco-íris leva ao pote de ouro, Dark Side transformou radicalmente a vida dos membros da banda. E o tilintar das moedas no início da canção “Money”, metaforicamente, parecia anunciar que dali pra frente nada mais seria como antes. Logo, as disputas internas, as brigas, turnês caríssimas e lucros exorbitantes levariam o Pink Floyd a se tornar uma das maiores atrações do show bussines, e por conseqüência, vítima de sua própria ambição.

 

Antes de comentar as faixas do disco, vale ressaltar que Dark Side acabou sendo gravado na íntegra numa versão Reggae chamada de Dub Side Of The Moon, por um grupo de famosos músicos de Reggae. E também, recentemente, pelo grupo The Flaming Lips, que havia se declarado fortemente influenciado pelo Pink Floyd.

Uma outra coisa a ser dita é o fato de algumas pessoas comentarem sobre a sincronia do disco com o filme O Mágico de OZ, chamado de The Dark Side Of The Rainbow. Vários artigos foram escritos e na internet é possível encontrar muita coisa a esse respeito. E quem se interessar por esse assunto e outros relacionados às músicas do Pink Floyd, não só do Dark Side, eu recomendo a leitura de “Pink Floyd e a Filosofia”, um livro de George A. Reisch, lançado pela editora Madras, que reúne vários artigos de filósofos modernos que abordam as questões filosóficas contidas na obra do grupo.

 

 

Faixas Comentadas

 

  • Breathe” – Essa música foi criada a partir de uma ideia de Richard Wright, que se inspirou num disco de Miles Davis, chamado Kind Of Blue. A letra, assim como todas as letras do disco, foi composta por Roger Waters, e fala basicamente sobre pessoas preparadas para não ceder, e viver a vida de forma intensa. Em dado momento a letra traz uma citação ao filme O Mágico de OZ;
  • On The Run” – Essa música foi construída a partir de algumas notas modificadas num Sintetizador AE. Também foram incorporadas sons de sirene, passos de pessoas, ruídos da rua, etc. Tudo para dar uma ideia de movimento e futuro. O álbum todo é recheado de sons, falas, vozes, risadas, como se fosse uma coisa viva, pulsante, como a batida de um coração no início de “Speak To Me”, que abre o disco. Roger Waters escreveu um monte de questões em cartelas que eram mostradas as pessoas, técnicos da equipe, porteiros e pessoas que estavam no estúdio. Até mesmo Paul MacCartney e a banda Wings participaram desta brincadeira que acabou recheando e aparecendo ao longo do disco. As vozes, segundo Roger Waters, é que trouxeram o lado escuro ao disco;
  • Time” – Essa música recebeu um incremento extra, pois o produtor Alan Parsons sugeriu à banda que utilizassem os sons de vários relógios que ele havia gravado recentemente. A introdução desta música chegou a ser utilizada aqui no Brasil numa série de TV nos Anos 70 chamada “Além da Imaginação” (The Twilight Zone). A letra fala sobre a pessoa ser dona do seu próprio destino, “de segurar as rédeas do seu destino”, segundo Roger Waters;
  • The Great Gig In The Sky” – Esta também foi uma música criada a partir de uma seqüência de acordes que Richard Wright tocou aleatoriamente ao piano. O lado A do disco estava todo pronto, mas a banda achou que poderia inserir ainda mais alguma coisa. Então, pediram para a cantora Clare Torry, umas das quatro cantoras que fizeram backvocals em algumas faixas do disco, improvisar sobre o tema que Rick Wright tinha criado. “Pense na morte, no horror, em qualquer coisa… Vá lá e faça!”, foi o pedido feito pelo produtor Alan Parsons. Assim, Clare gravou numa tomada só os vocais da música, que é uma das mais bonitas e sinistras do disco;
  • Money” – Esta música nasce de um blues que Roger Waters gravou ao violão. Uma curiosidade nesta canção é que seu riff principal ser em compasso7/8 (sete por oito) um tempo musical muito raro especialmente para rock e pop em geral, mais comumente tocados em compassos de 4 tempos (o famoso 4/4 – quatro por quatro). O Pink Floyd não vendia bem seus discos na América. Assim, a gravadora Capitol, subsidiária da Harvest, gravadora do grupo, investiu numa campanha de marketing pesada, que inclua o lançamento desta música em single, o que a banda relutou em fazer, mas no final teve que aceitar. O hit se tornou um enorme sucesso e alavancou as vendas do álbum nas terras do Tio Sam. O contraditório nesta história é que a letra faz uma crítica feroz ao capitalismo, enquanto que a banda e sua gravadora se valiam de algumas ferramentas deste sistema para fazer muito dinheiro;
  • Us And Them” – Essa música aparece pela primeira vez por volta de 1969, não com o nome que acabou ganhando. Ela foi apresentada para o diretor de cinema Michelangelo Antonioni, e seria utilizada no seu filme Zabriskie Point. Porém, o diretor não a utilizou, e disse: “É linda mas muito triste; me faz pensar em igreja”. Durante muito tempo ela permaneceu esquecida e não foi utilizada em nenhum dos álbuns anteriores a Dark Side. David Gilmour disse: “ela estava esperando para renascer neste disco”. Richard Wright se lembrou dela e logo Roger Waters providenciou a letra que fala basicamente da questão filosófica da raça humana ser capaz de ser humana. Waters, aliás, tem uma tese sobre o sucesso desta música: “Toquei metade do compasso e deixei um compasso e meio vazio… é por isso que a canção funciona”;
  • Any Colours You Like/Brain Damage/Eclipse” – Estas três músicas na seqüência tem tudo a ver com Syd Barrett. Todas fazem referência a problemas mentais e loucura. Sobre “Brian Damage” Roger Waters disse que se trata da noção de defender o direito a ser diferente. E ao final de “Eclipse”, uma das muitas vozes do disco diz: “Não existe o lado escuro da lua, na verdade ela é toda escura”. E o disco termina com o mesmo batimento do coração, e a mesma sensação e incomodo que é o álbum todo. O mesmo Waters disse que o disco tenta expressar seus sentimentos sobre as coisas; simplesmente. Ele acha que, musicalmente, as músicas são levadas por esse sentimento emocional, por isso que o disco fez tanto sucesso e chegou tão longe, pelo fato dele estar muito próximo à vida cotidiana das pessoas ao redor do mundo.

 

Vitor R. E. Aleixo, publicitário, 47 anos, ex-produtor do programa “Arquivo Pop”, da Rádio Cultura FM de Amparo, 102,9MHz; atualmente, produz o programa “Wooly Bully”, na Rádio Rock Clube, no site: www.radiorockclube.net.