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Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band: O disco dos Beatles que mudou o rock

Em meados dos Anos 1960, os Beatles estavam se afastando daquela imagem juvenil de “Reis do Iê Iê Iê”. O primeiro passo foram as gravações de “Rubber Soul” e “Revolver”, em 1965 e 1966 respectivamente. Mas, a mudança viria mesmo com “Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band, lançado em 1967. Deste disco em diante, o rock não seria mais o mesmo.

Os Beatles já haviam se tornado o grupo musical mais famoso do mundo antes de lançarem Sgt Pepper´s. Enquanto o mundo ardia em conflitos políticos, os rapazes de Liverpool não queriam nem saber e procuravam manter a imagem de bons moços. Mesmo com a polêmica frase de John Lennon, “nós somos mais populares que Jesus Cristo”, dito em meados da década, a preocupação deles era com a música. Mais tarde, o mesmo John Lennon iria se envolver mais com política, e isso pode ser um dos motivos que levou o grupo a se separar em 1970. Porém, naquele ano de 1966, quando o LCD estava abrindo as cabeças e o rock vivia seu segundo grande momento histórico, a banda mais famosa daquele período vivia seu apogeu.

Apesar de ser lançado somente em 2 de junho de 1967, Sgt Pepper´s começou a ser germinado no ano anterior, quando Paul McCartney pensou em fazer algo que mudasse a imagem do grupo: de rapazes engraçadinhos a músicos sérios. Paul viu nessa mudança a oportunidade da banda explorar os mesmo caminhos que já haviam sido abertos pelos dois álbuns anteriores (“Rubber Soul e “Revolver”). Porém, indo mais fundo nessas experiências.

Sgt Pepper´s introduziu uma série de experimentações de estúdio que o fizeram uma referência para as gravações dos álbuns a partir de então.

Capitaneando os estúdios e uma mesa de quatro canais estava o produtor George Martin, que deu vida às ideias musicais dos rapazes dos Beatles.

O embrião do que o álbum traria fora lançado ainda em 1966, “Strawberry Fields Forever”, um single que não está no disco, mas que abriu as portas para o que viria a ser feito.

Sgt. Pepper´s foi pensado para ser um álbum revolucionário como um todo. Até a sequência das canções foi planejada e, as músicas emendadas sem interrupção, era algo inovador para a época. Além do que, com esse disco, os Beatles acabaram influenciando a criação do termo que viria a ser batizado de “album conceitual”. Na verdade, John Lennon foi quem teve essa ideia, que foi combatida ferozmente pelo empresário deles na época: Brian Epstein, que acabou perdendo a batalha. Assim, o disco era inovador também por esse motivo. Uma vez que os LPs na Inglaterra eram vistos como um amontoado de hits somados ao que era conhecido por “fillers”, músicas para completar o vinil. Com Sgt. Pappers, os Beatles acabam com isso, e os LPs passam a ter identidade própria, pois a ideia era oferecer um maior número de músicas no espaço de um vinil.

O álbum fora gravado entre 6 de dezembro de 1966 e 1 de abril de 1967. Os Beatles e o produtor George Martin se enfurnaram no estúdio por 129 dias e produziram cerca de 700 horas de gravação para nascer Sgt. Papper´s.

Só para se ter uma ideia do impacto do álbum, lançado somente em 2 de junho daquele ano de 1967, seis dias depois do lançamento, Jimi Hendrix já cantava a música tema nos seus shows pela Inglaterra.

Posteriormente a Sgt. Pepper´s, muitos outros artistas criaram seus “álbuns conceituais”, mas certamente, os Beatles saíram na frente, dando o pontapé inicial e influenciaram um cem número de artistas pelo mundo afora.

Se hoje as novas tecnologias permitem gravações de todas as maneiras, naqueles longínquos anos de 1966 e 1967, os Beatles, George Martin e uma mesa de quatro canais, provaram que para se gravar um bom disco não é preciso muita tecnologia, mas, sim, muita criatividade e genialidade ao produzir um álbum tão complexo com o que a tecnologia dispunha naquele momento.

Se hoje sobra tecnologia, falta criatividade aos grupos de rock, que mais parecem uma cópia de si mesmos, por isso que Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, continua sendo um disco tão importante para o rock hoje e sempre.

 

A Capa de Sgt Pepper´s…

 

Outro diferencial do disco Sgt. Peppers dos Beatles era a capa. A idéia original foi de Paul McCartney, que desenhou num papel uma multidão em praça pública assistindo Sgt. Pepper e sua banda receberem do prefeito uma copa ou um troféu.

Então, a partir desse desenho, os artistas Peter Blake e Jane Haworth desenham e desenvolvem toda a concepção da capa do disco. Também Robert Frazer, dono de uma galeria de artes, supervisionou todo o projeto. Inclusive, foi ele quem indicou o fotógrafo Michael Cooper para a famosa foto da capa.

Aconteceu então uma reunião entre Blake, Frazer e McCartney, onde nasceu a idéia da banda escolher a galeria de pessoas a serem representadas na capa. Paul se encarregou de levar a proposta aos demais Beatles e sugerir que eles indicassem uma lista de pessoas que gostariam de ver na capa do disco.

John Lennon escolheria: Lenny Bruce, Aleister Crowley, Dylan Thomas, Oscar Wilde, Edgar Allen Poe e Lewis Carroll. De sua lista foram excluidos: Gandhi, Hittler, Jesus Cristo, Marques de Sade entre outros; George Harrison só escolheu Gurus indianos, todos com nomes incompreensíveis; Paul McCartney indicou Brigitte Bardot, William Burroughs, Robert Pell, Karlheinz Stockhausen, Aldous Hexley, H.G. Wells, Albert Einstein, Carl Jung, Aubrey Beardsley, Alfred Jarry, Tom Mix, Johnny Weissmuller, Rene Magritte, Tyrone Power, Karl Marx, Richmal Crompton, Dick Barton, Tommy Handley, Albert Stubbins e Fred Astaire; Ringo Starr não indicou ninguém, apenas apoio as indicações dos demais Beatles; o casal de artitas Peter Blake e Jane Haworth contribuiram com as presenças de W.C. Fields, Tony Curtis, Dion DiMucci, Bobby Breen, Shirley Temple, Sonny Liston, Johnny Weissmuller e H.C. Westerman e, Robert Frazer incluiu Terry Shoutern, Wally Berman e Richard Lindner.

Muita gente mesmo foi homenageada com a foto na capa do disco. Também essa capa seria uma grande influência para tantas outras capas de discos de rock a partir de então. No ano seguinte, 1968, Frank Zappa parodiou a capa de Sgt. Peppers no seu disco We´re Only In It For the Money (Nós só estamos nessa por dinheiro), refazendo a famosa foto como muita ironia. Os Beatles encararam numa boa a gozação, mas não responderam se estavam na música somente por dinheiro.

 

Faixas Comentadas

 

“Sgt. Peppers Lonely Hearts Club”, a música que abre o disco, é uma brincadeira com aquela coisa de ser uma outra banda, e traz uma gritaria no final, que é de uma apresentação do grupo no Hollywood Bowl, em 1965; “A Little Help From My Friends”, é cantada por Ringo Starr, pois, como era acordado entre eles, em todos os discos, pelo menos duas músicas seriam cantadas por Ringo e George. Assim, Lennon e McCartney perceberam que o disco estava quase pronto e faltava uma canção para Ringo cantar, daí nasceu essa música; “Lucy It The Sky With Diamonds”, que todos juram ser uma referência ao LSD, mas que John Lennon dizia que se tratava de um desenho feito pelo seu filho Julian, então com quatro anos, para sua amiguinha Lucy O´Donell, uma colega de escola; “Getting Better” nasceu de uma expressão de Jimmy Nichol, baterista que substitui Ringo Starr na turnê Australiana de 1964, pois Ringo estava hospitalizado. John Lennon disse a respeito dela: “Eu sou um homem violento que aprendeu a não ser violento. Um homem que se arrependeu de sua violência.”; “She´s Leaving Home” foi inspirada num artigo de jornal sobre uma garota de 17 anos que fugiu de casa. Nessa canção, a orquestra foi regida por outra pessoa, não por George Martin, que ficou ofendido com a atitude do grupo; “Being For The Benefit Of. Mr. Kite” teve como inspiração um cartaz de 1843 que foi comprado por John Lennon, com a apresentação de um circo que foi de William Darby, o primeiro negro a ser proprietário de um circo na Inglaterra; “Within You, Without You” é baseada na filosofia hindu que George Harrison estava estudando; “When I´m Sixty-Four” foi escrita por Paul McCarty quando ele era menino, em 1957, quando morava com seus pais; “Lovely Rita” tem uma referência ao nome de um policial de trânsito chamado Meta Davis. Paul ficou encantado com o nome Meta, que segundo ele, soava como um jingle publicitário. Brincando ao piano acabou compondo essa música; “Good Morning Good Morning” foi tirada de uma propaganda da Kellogs sobre cereais de milho. A letra é uma ode à vida suburbana que John Lennon vivia naquela época; e finalmente “A Day In The Life”, que se refere quase exclusivamente a alguns artigos de jornais lidos diariamente por John Lennon.

No final do disco, em vinil, ainda era possível ouvir uma mensagem ao contrário (chamada de backmasking), segundo Paul a mensagem dizia: “Coundn´t really be any other” (traduzir), mas que soava mais como: “We´ll fuck you like superman”, que não dá para traduzir.

 

NOTA: Para escrever este artigo, utilizei-me das pesquisas e partes do texto que fora produzido por mim para o Programa Arquivo Pop, na Rádio Cultura FM de Amparo.

 

Vitor R. E. Aleixo, publicitário, 48 anos, ex-produtor do programa “Arquivo Pop”, da Rádio Cultura FM de Amparo, 102,9MHz; atualmente, produz o programa “Wooly Bully”, na Rádio Rock Clube, no site: www.radiorockclube.net.

2112 – O Álbum que Alçou o Rush ao Estrelato do Rock And Roll

O Rush estava na estrada há um bom tempo. Tinha trocado de baterista e já havia lançado três álbuns… Mas, em 1975, a fama ainda era um objeto de desejo para o grupo.

A banda havia sido formada em 1968, em Toronto, no Canadá, por Jeff Jones, baixista e vocal, Alex Lifeson, guitarras e John Rutsey, batera. O nome “Rush” foi ideia de um irmão de Rutsey.

Logo Jeff Jones deixaria a banda, sendo substituído por Geedy Lee, um amigo de Alex Lifeson. Após algumas mudanças na formação, o grupo se consolida com Lifeson, Rutsey e Lee. Com essa formação, lançam de forma independente seu primeiro disco, chamado “Rush”, em 1974.

Em meados daquele ano, John Rutsey deixou a banda devido aos seus problemas de saúde. A banda então começou a procurar um batera para substituí-lo. Logo, a fama de um certo baterista chegou aos ouvidos do produtor do grupo, que foi até a fazenda onde Neil Peart morava. Neil havia tentando a sorte na Inglaterra, onde havia morado e tocado em alguns grupos de rock. Decepcionado, voltou para o Canadá e provavelmente teria abandonado a música se não fosse convidado para uma audição no Rush.

A entrada de Neil Peart no Rush marcou também uma nova fase para o grupo. Pois Neil, além de tocar muito bem bateria – alguns fãs dizem que ele toca muito melhor que John Rutsey – ele passou a compor as letras das músicas que eram feitas por Geedy Lee e Alex Lifeson.

A união desse tour de force deu seu primeiro resultado com o lançamento do álbum “Fly By Night”, em fevereiro de 1974, por uma grande gravadora (Mercury Records). A novidade do álbum era, além do novo baterista e letrista, o som que a banda apresentou, que deixou de ser apenas hard rock como no primeiro álbum, e se misturou com o rock progressivo, se transformando na assinatura sonora do Rush. Apesar disso, o álbum não agradou nem ao público e muito menos a crítica.

Neste mesmo ano, o grupo ainda lançaria “Caress Of Steel”, que desagradou ainda mais ao público e foi massacrado pela crítica. Parecia que a carreira do Rush estava fadada ao fracasso.

Então, pressionados pela gravadora, pressionado pelos empresários e frustrados com eles mesmos, o grupo entra em estúdio para gravar um novo álbum; era tudo ou nada.

O álbum começou a ser concebido quando Neil Peart, que era fã dos livros de Ayn Rand, se inspirou nos escritos libertários desta autora e compôs a faixa título do disco, uma música de mais de vinte minutos dividida em sete segmentos. Quando foi lançado, a música “2112” ocupava todo um lado do vinil, que continha no chamado Lado B, ou Lado 2, músicas que até hoje são as preferidas dos fãs da banda.

“2112” o álbum, lançado em 1º de abril de 1976, seguia o mesmo caminho de seus antecessores “Fly By Night” e “Caress Of Steel”. Porém, a mistura de hard rock e rock progressivo, que caracterizava o som da banda, neste álbum, finalmente havia se cristalizado.

Após seu lançamento, o álbum foi bem recebido pelos fãs. Pórem, a crítica continuou não gostando do trabalho da banda. Alheios aos críticos, o Rush seguiu seu caminho muito particular, gravando álbuns e compondo suas músicas e produzindo disco que até hoje fazem a cabeça dos fãs.

A tão sonhada fama havia chegado enfim para os membros do grupo. E foi com “2112” que os canadenses do Rush ganharam o mundo e escreveram seus nomes na história do Rock And Roll para sempre.

 

 

Faixas Comentadas

 

  • 2112” – A música que abre e dá nome ao disco é um épico futurista de mais de 20 minutos, divida em sete partes: I) “Overtune”, II) “Temples pf The Syrinx”, III) “Discovery”; IV) “Presentation” V) “Oracle: The Dream”, VI) “Soliloquy” e VII) “The Grande Finale”. Neil Peart se inspirou no livro “Anthem”, um romance futurista da escritora Russa, Ayn Rand. A letra fala de um homem que lidera uma revolução através da música e enfrenta os Sacerdotes do Templo de Syrinx, que governavam o mundo naquele ano de 2112. Alguns críticos dizem que a música refletia a frustação do grupo em relação à indústria da música. O curioso no caso desta música é que a gravadora só aceitou o álbum porque as outras cinco músicas que compõem o disco, e não tem nada a ver com a história narrada em “2112”, teriam, segundo eles, potencial comercial. Porém, foi justamente “2112” o maior sucesso comercial do disco. Não extamente a música inteira, mas um single de 6 minutos e 45 segundos contendo as partes de “Overtune” e “Temple of The Syrinx”. Quem quiser saber mais sobre essa música, acesse: http://whiplash.net/materias/curiosidades/112017-rush.html;
  • A Passage To Bangkok” – Essa música que abre o Lado 2 do álbum, posse ser descrita como um passeio turístico em rotas do tráfico de maconha como Colombia, México, Jamaica, Marrocos, Tailândia, etc. Onde o turista pode sentir seus odores e respirar suas “doces fragrâncias”;
  • The Twilight Zone” – Essa canção foi inspirada em dois episódios de uma série de TV americana com o mesmo nome (no Brasil veio com o nome de Além da imaginação), que fez muito sucesso nos Anos 70;
  • Lessons” – Essa música para mim fala sobre as lições que a vida nos ensina, de doces lembranças e de às vezes estarmos muito perto de perder o rumo de nossas vidas;
  • Tears” – Uma linda canção com um arranjo suave e por vezes muito triste;
  • Something For Nothing” – Para mim esta é uma das músicas mais bacanas do Rush. Um rock que começa calmo e de repente se transforma num poderoso rock and roll, com uma pegada incrível. A letra – bastante otimista – fala que as coisas importantes estão dentro da própria pessoa. O verso final diz: “na sua cabeça está a resposta / deixa ela te guiar adiante / deixe seu coração ser a âncora / e o batimento sua própria canção”.

 

Vitor R. E. Aleixo, publicitário, 47 anos, ex-produtor do programa “Arquivo Pop”, da Rádio Cultura FM de Amparo, 102,9MHz; atualmente, produz o programa “Wooly Bully”, na Rádio Rock Clube, no site: www.radiorockclube.net.

The Dark Side Of The Moon: Explorando o Lado Sombrio do Arco-Irís

O Pink Floyd foi criado no final dos Anos 60 por quatro jovens estudantes de arte: Syd Barrett, Roger Waters, Nick Mason e Richard Whrite. Eles faziam um som psicodélico e tocavam em bares underground em Londres naquela época.

A fama no cenário underground levou-os a gravarem seu primeiro disco em 1967, iniciando assim uma carreira musical que arrebataria fãs pelo mundo todo.

Porém, o grupo sofreu um revés naquele mesmo final dos Anos 60 que poderia ter acabado com os sonhos de continuar na estrada. Syd Barrett, líder e principal compositor da banda, teve problemas psicológicos que o levaram a ter que deixar o grupo que ele havia criado e batizado com o nome de dois blueseiros americanos: Pink Anderson e Floyd Concil.

No lugar de Barrett a banda efetivou David Gilmour, amigo e colaborador que já estava segurando a onda fazendo a segunda guitarra nas apresentações ao vivo do grupo.

Reformulado, o Pink Floyd seguiu em frente na procura de seu novo caminho. O grupo foi deixando de lado o som e as letras psicodélicas nos álbuns que se seguiram e que foram gravados entre 1968 e 1973, quando lançaram aquele que seria o álbum que alçaria o grupo ao panteão das maiores bandas de rock da história: The Dark Side Of The Moon.

O Pink Floyd era uma banda underground ainda quando lançou Dark Side em 1º de março de 1973. Apesar do reconhecimento da crítica, o grupo ainda não tinha atingido o grande público até o lançamento do álbum.

Dark Side começou a ser germinado quando o grupo se reuniu na casa de Nick Mason para discutir a criação de um novo álbum. Na ocasião, eles gravaram uma lista de coisas que os preocupavam. Tempo, dinheiro, loucura e morte eram algumas destas preocupações. Também preocupava a banda, principalmente David Gilmour, o fato das canções serem menos diretas, explorando temas que estavam longe da compreensão das pessoas comuns. Estas gravações foram combinadas com algumas ideias sonoras e algumas sobras do material apresentado para a trilha sonora do filme Zabriskie Point, do diretor Michelangelo Antonioni. Batizada primeiramente de Eclipse (A Piace For Assorted Lunatics), as músicas começaram a ser apresentadas como uma suíte ao público nos shows da banda em 1972. Depois, acabaram mudando o nome para Dark Side Of The Moon (A Piece For Assorted Lunatics). E em 17 de fevereiro de 1972, o Pink Floyd apresentou as músicas do novo álbum num concerto no Teatro Rainbow exclusivo para jornalistas. Ao final, a avaliação foi favorável por quase todos os presentes.

O álbum então foi gravado nos famosos estúdios Abbey Road, e produzido por Alan Parsons, que já havia trabalhado com a banda no álbum Atom Mother Heart, lançado em 1970. O Pink Floyd utilizou a mais moderna tecnologia disponível até aquele momento, o sistema Quadrifônico e a Gravação Multicanal, para conceber o disco que até hoje é tido como revolucionário neste sentido.

A capa do disco também era uma coisa à parte. Concebida pelo design Storm Thorgerson, traz um prisma sendo atravessado por uma luz branca que depois se transforma nas cores do arco-irís. A banda queria uma coisa simples, audaciosa e dramática. Thorgerson concebeu a capa justificando que a luz branca seria a própria luz irradiada pela banda, que passa pelo prisma, inspirada nas pirâmides do Egito, revelando toda ambição e cobiça do ser humano.

Após o lançamento, Dark Side vendeu mais de um milhão de cópias só nos Estados Unidos. Esse sucesso repentino nos EUA, principal mercado a ser conquistado por qualquer banda de rock naquela época, se deve a dois fatores: a fama que o grupo angariou devido as suas apresentações ao vivo, e pelo fato da gravadora Capitol, subsidiária da Harvest, ter lançado um single com a música “Money”. Fato esse que deixou os membros do Pink Floyd irritado, uma vez que o grupo se recusava terminantemente a lançar singles de suas músicas.

A importância de Dark Side não se limita somente aos números de discos vendidos até hoje, mais de 30 milhões no mundo todo. Ela se deve principalmente ao fato do álbum ter sido uma grande influência para muitas bandas de rock e, principalmente, para muitas pessoas ao redor do mundo.

Nas palavras de David Gilmour, Dark Side representou a conquista do mundo, o auge da banda e o começo do fim. Assim como o arco-íris leva ao pote de ouro, Dark Side transformou radicalmente a vida dos membros da banda. E o tilintar das moedas no início da canção “Money”, metaforicamente, parecia anunciar que dali pra frente nada mais seria como antes. Logo, as disputas internas, as brigas, turnês caríssimas e lucros exorbitantes levariam o Pink Floyd a se tornar uma das maiores atrações do show bussines, e por conseqüência, vítima de sua própria ambição.

 

Antes de comentar as faixas do disco, vale ressaltar que Dark Side acabou sendo gravado na íntegra numa versão Reggae chamada de Dub Side Of The Moon, por um grupo de famosos músicos de Reggae. E também, recentemente, pelo grupo The Flaming Lips, que havia se declarado fortemente influenciado pelo Pink Floyd.

Uma outra coisa a ser dita é o fato de algumas pessoas comentarem sobre a sincronia do disco com o filme O Mágico de OZ, chamado de The Dark Side Of The Rainbow. Vários artigos foram escritos e na internet é possível encontrar muita coisa a esse respeito. E quem se interessar por esse assunto e outros relacionados às músicas do Pink Floyd, não só do Dark Side, eu recomendo a leitura de “Pink Floyd e a Filosofia”, um livro de George A. Reisch, lançado pela editora Madras, que reúne vários artigos de filósofos modernos que abordam as questões filosóficas contidas na obra do grupo.

 

 

Faixas Comentadas

 

  • Breathe” – Essa música foi criada a partir de uma ideia de Richard Wright, que se inspirou num disco de Miles Davis, chamado Kind Of Blue. A letra, assim como todas as letras do disco, foi composta por Roger Waters, e fala basicamente sobre pessoas preparadas para não ceder, e viver a vida de forma intensa. Em dado momento a letra traz uma citação ao filme O Mágico de OZ;
  • On The Run” – Essa música foi construída a partir de algumas notas modificadas num Sintetizador AE. Também foram incorporadas sons de sirene, passos de pessoas, ruídos da rua, etc. Tudo para dar uma ideia de movimento e futuro. O álbum todo é recheado de sons, falas, vozes, risadas, como se fosse uma coisa viva, pulsante, como a batida de um coração no início de “Speak To Me”, que abre o disco. Roger Waters escreveu um monte de questões em cartelas que eram mostradas as pessoas, técnicos da equipe, porteiros e pessoas que estavam no estúdio. Até mesmo Paul MacCartney e a banda Wings participaram desta brincadeira que acabou recheando e aparecendo ao longo do disco. As vozes, segundo Roger Waters, é que trouxeram o lado escuro ao disco;
  • Time” – Essa música recebeu um incremento extra, pois o produtor Alan Parsons sugeriu à banda que utilizassem os sons de vários relógios que ele havia gravado recentemente. A introdução desta música chegou a ser utilizada aqui no Brasil numa série de TV nos Anos 70 chamada “Além da Imaginação” (The Twilight Zone). A letra fala sobre a pessoa ser dona do seu próprio destino, “de segurar as rédeas do seu destino”, segundo Roger Waters;
  • The Great Gig In The Sky” – Esta também foi uma música criada a partir de uma seqüência de acordes que Richard Wright tocou aleatoriamente ao piano. O lado A do disco estava todo pronto, mas a banda achou que poderia inserir ainda mais alguma coisa. Então, pediram para a cantora Clare Torry, umas das quatro cantoras que fizeram backvocals em algumas faixas do disco, improvisar sobre o tema que Rick Wright tinha criado. “Pense na morte, no horror, em qualquer coisa… Vá lá e faça!”, foi o pedido feito pelo produtor Alan Parsons. Assim, Clare gravou numa tomada só os vocais da música, que é uma das mais bonitas e sinistras do disco;
  • Money” – Esta música nasce de um blues que Roger Waters gravou ao violão. Uma curiosidade nesta canção é que seu riff principal ser em compasso7/8 (sete por oito) um tempo musical muito raro especialmente para rock e pop em geral, mais comumente tocados em compassos de 4 tempos (o famoso 4/4 – quatro por quatro). O Pink Floyd não vendia bem seus discos na América. Assim, a gravadora Capitol, subsidiária da Harvest, gravadora do grupo, investiu numa campanha de marketing pesada, que inclua o lançamento desta música em single, o que a banda relutou em fazer, mas no final teve que aceitar. O hit se tornou um enorme sucesso e alavancou as vendas do álbum nas terras do Tio Sam. O contraditório nesta história é que a letra faz uma crítica feroz ao capitalismo, enquanto que a banda e sua gravadora se valiam de algumas ferramentas deste sistema para fazer muito dinheiro;
  • Us And Them” – Essa música aparece pela primeira vez por volta de 1969, não com o nome que acabou ganhando. Ela foi apresentada para o diretor de cinema Michelangelo Antonioni, e seria utilizada no seu filme Zabriskie Point. Porém, o diretor não a utilizou, e disse: “É linda mas muito triste; me faz pensar em igreja”. Durante muito tempo ela permaneceu esquecida e não foi utilizada em nenhum dos álbuns anteriores a Dark Side. David Gilmour disse: “ela estava esperando para renascer neste disco”. Richard Wright se lembrou dela e logo Roger Waters providenciou a letra que fala basicamente da questão filosófica da raça humana ser capaz de ser humana. Waters, aliás, tem uma tese sobre o sucesso desta música: “Toquei metade do compasso e deixei um compasso e meio vazio… é por isso que a canção funciona”;
  • Any Colours You Like/Brain Damage/Eclipse” – Estas três músicas na seqüência tem tudo a ver com Syd Barrett. Todas fazem referência a problemas mentais e loucura. Sobre “Brian Damage” Roger Waters disse que se trata da noção de defender o direito a ser diferente. E ao final de “Eclipse”, uma das muitas vozes do disco diz: “Não existe o lado escuro da lua, na verdade ela é toda escura”. E o disco termina com o mesmo batimento do coração, e a mesma sensação e incomodo que é o álbum todo. O mesmo Waters disse que o disco tenta expressar seus sentimentos sobre as coisas; simplesmente. Ele acha que, musicalmente, as músicas são levadas por esse sentimento emocional, por isso que o disco fez tanto sucesso e chegou tão longe, pelo fato dele estar muito próximo à vida cotidiana das pessoas ao redor do mundo.

 

Vitor R. E. Aleixo, publicitário, 47 anos, ex-produtor do programa “Arquivo Pop”, da Rádio Cultura FM de Amparo, 102,9MHz; atualmente, produz o programa “Wooly Bully”, na Rádio Rock Clube, no site: www.radiorockclube.net.

Black Sabbath: a invenção do Heavy Metal

Birmingham, cidade industrial da Inglaterra, final dos Anos 1960. Quatro jovens pobres resolvem montar uma banda de rock e tocar nos bares da cidade. Em suas cabeças havia o sonho de que a música pudesse dar-lhes um futuro melhor; longe do mesmo destino da maioria dos seus moradores, que acabavam trabalhando nas fábricas da cidade.

O grupo era formado por Tony Iommi, Terry “Geezer Butler, Bill Ward e John “Ozzy” Osbourne, e chamava-se Earth. Porém, logo tiveram que mudar de nome, uma vez que descobriram que já exista uma outra banda com esse mesmo nome.

Ozzy Osbourne conta em sua biografia (Eu Sou Ozzy, editora Benvirá), que ele e Geezer Butler foram assistir a um filme chamado “Black Sabbath” (aqui no Brasil esse filme ganhou o nome de “As Três Máscaras do Terror”), estrelado por Boris Karloff. Então, eles perceberam naquele dia que as pessoas se interessam e até estão dispostas a pagar para se assustarem. Logo em seguida, Geezer Butler teve um sonho onde ele via um demônio no pé de sua cama, e aquilo tinha lhe trazido muito medo. Então, ele escreve os primeiros versos de uma canção que veio a se chamar “Black Sabbath”.

O grupo que já tocava “pesado”, para os padrões da época, começou a compor músicas mais realistas, falando de guerras, mortes e recheadas de ocultismo, que estava muito em voga naquela época. Assim, por volta de 1969, eles resolvem assumir o nome de Black Sabbath. E, em janeiro de 1970, finalmente eles conseguem um contrato para gravar seu primeiro disco. Segundo Ozzy, o nome Black Sabbath fez muita diferença, uma vez que tudo que era relacionado com o “lado escuro” vendia.

Sobre as gravações do álbum, Tony Iommi disse: “Entramos no estúdio e fizemos tudo num dia só: tocamos nosso repertório daquele tempo e pronto. Nunca fizemos uma segunda versão da maior parte do material.”.

Com um prazo tão apertado, o resultado final foi que o álbum ficou com uma crueza poucas vezes ouvida no rock and roll. Tony Iommi, que havia sofrido um acidente e perdido as duas pontas dos dedos da mão direita, resolveu gravar as guitarras do álbum meio tom abaixo (mi bemol), o que acentuou ainda mais o som opressivo do disco.

Enquanto o grupo continuava suas apresentações em bares e casas noturnas, em 13 de fevereiro de 1970, uma sexta-feira, é lançado o disco “Black Sabbath”.

A começar pela capa, onde uma mulher com ares de bruxa é fotografada numa paisagem bucólica, depois, as sete canções que compõem o álbum não deixavam dúvidas de que aquele disco não era simplesmente mais um disco de rock; era, na verdade, um divisor de águas, considerado hoje como a Pedra Fundamental do Heavy Metal.

Logo, a canção “Black Sabbath” começou a tocar no programa Radio 1, da BBC, o que ajudou muito a banda a ficar mais conhecida.

Após o disco ser lançado, a recepção da crítica não foi das melhores, nem na Inglaterra e tão pouco nos Estados Unidos. Lester Bangs, famoso crítico da revista Rolling Stone, disse que o álbum era pretensioso, mal gravado, e que o Black Sabbath era como o Cream, banda de Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker, só que muito pior. Ao longo de todo sua carreira, o grupo iria agradar sempre mais ao público do que aos críticos.

A importância do disco só foi sendo percebida com o passar do tempo e com a quantidade de bandas que foram surgindo tendo como referência o Black Sabbath. Além disso, o som da banda não havia nascido de um desdobramento de um outro gênero, como por exemplo, o Rock Progressivo, que nasce a partir do som psicodélico. Não, o que fora criado por Tony Iommi, Ozzy Osbourne, Geezer Butler e Bill Ward, deve-se à ousadia e a criatividade deles mesmo, que souberam catalisar em suas músicas toda uma insatisfação com a vida e o mundo do seu tempo. “Nossa música é uma reação a toda essa babaquice de paz, amor e felicidade. Os hippies ficam tentando te convencer de que o mundo é uma maravilha, mas é só olhar ao redor para ver em que merda nós estamos“, disse Ozzy.

 

Faixas Comentadas

  • Black Sabbath” – A canção abre o disco com seu clima sombrio, trovoadas e as notas sinistras do seu refrão, e traz na letra uma referência ao sonho de Geezer Butler, onde uma pessoa é perseguida por um demônio. Muitos críticos e principalmente religiosos acusam a banda de fazer apologia ao Diabo. O riff foi construído com uma progressão harmônica, incluindo uma quinta diminuta. Esse intervalo era chamado na Idade Média de “Diabolous in Musica”, pois devido ao seu alto grau de dissonância  sugeria conotações satânicas (falta de harmonia, feiura) em contraposição com combinações sonoras consonates (harmonia, beleza) para os padrões estéticos musicais da época. Muitas bandas de Heavy Metal tem se utilizado deste intervalo em suas canções. Segundo Geezer Butler, essa canção teve o riff inspirado em “Mars, The Bringer of War”, o primeiro movimento da música “Suíte The Planets”, do compositor inglês Gustav Holst;
  • N.I.B” – Traz uma letra que sugere a entrega ao senhor das trevas, Lúcifer. Apesar de todos acreditarem que a sigla signifique: Nativ On Black, segundo a banda, ela é na verdade uma referência ao apelido de Bill Ward por causa de sua barba, que era parecida com uma ponta de caneta (pen nib),em inglês. Essa música apresenta um efeito de Wah-wah no baixo, em sua introdução, uma inovação para a época;
  • Evil Woman” – A música que é uma cover de uma banda americana de blues rock chamada Crow, foi lançada primeiramente como single em dezembro de 1969, depois foi incorporada ao disco;
  • Behind The Walls of Sleep” – Essa música fora inspirada num livro do escritor H.P. Lovecraft, que morreu em 1937. Os trabalhos deste autor são profundamente pessimistas e cínicos, muitas vezes contrários aos valores do Iluminismo e do Cristianismo. Sua obra é exclusivamente sobre o horror, tendo a finalidade de perturbar o leitor. Diversas bandas de Heavy Metal se inspiraram em suas histórias;
  • Warning” – Esta música foi inspirada numa canção de Aynsley Dunbar, chamada “Retalation”. Em dado momento, somente a guitarra de Iommi é ouvida, os outros instrumentos silenciam. Então, ele dá mostras de sua incrível capacidade de criar riffs, pois, o que ele toca poderia ter sido transformado em um monte de outras músicas;
  • Wicked World” – Esta música ficou de fora do disco lançado na Inglaterra e aqui no Brasil. Nos EUA, o álbum foi lançado com ela. Posteriormente, ela foi incluída também quando lançado em CD.

 

 

Vitor R. E. Aleixo, publicitário, 47 anos, ex-produtor do programa “Arquivo Pop”, da Rádio Cultura FM de Amparo, 102,9MHz; atualmente, produz o programa “Wooly Bully”, na Rádio Rock Clube, no site: www.radiorockclube.net.